Translate

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Luz no Lar–Francisco Cândido Xavier

Nota do Blog: Apesar de estar integralmente apresentado. Esse livro ainda não está totalmente formatado nesse blog, para uma leitura mais prazerosa.

Caro Amigo:
Se você gostou do livro e tem condições de comprá-lo faça-o pois assim ajudaras a diversas instituições de caridade, que é para onde os direitos autorais das obras espíritas são destinadas.
Que Jesus o abençoe.

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER – ESPÍRITOS DIVERSOS

ANTECÂMARA

"O culto do evangelho em casa conta hoje com numerosos núcleos.

Porque não escrevem os amigos desencarnados um volume particularmente dedicado o

semelhante serviço?”.

***

“Queríamos um livro que nos desse algumas noções de lar e família, à luz da

reencarnação.”

***

“Realmente não temos, por agora, tempo bastante para despender com a leitura de um

tratado religioso, em nossas reuniões familiares, mas estimaríamos possuir um livro simples,

para estudos rápidos e independentes uns dos outros, no qual pudéssemos meditar as lições

de Jesus, conversando...”

***

“Não ignoramos as obras notáveis, em torno do Evangelho; entretanto, para os

entendimentos em casa, no culto da oração, cremos nos seria de grande valor o manuseio

de páginas ligeiras, mas edificantes, que nos ajudassem a pensar sobre as verdades do

espírito, sem longo esforço.”

***

“Não poderemos ter um facilitário para assimilar as idéias espíritas-cristãs?”.

***

“Atualmente, o culto do Evangelho em casa pede um conjunto de lições práticas para reger

a conversação destinada a explicar os ensinamentos de Jesus.”

***

“Sim, dispomos de excelentes volumes para o exame sistemático do Evangelho, não só na

Doutrina Espírita, quanto igualmente em outros círculos religiosos, mas reconhecemos a

necessidade de mais livros para o culto do nosso Divino Mestre, na intimidade do lar, livros

que nos revelem os preceitos cristãos, de maneira tão simples quanto possível.”

***

Respondendo às solicitações dessa natureza, com que temos sido honrados por muitos

amigos, reunimos os recursos da lavoura espírita evangélica, de que se constitui este livro,

para ofertá-los aos leitores amigos.

E creiam todos eles que assim procedemos não porque sejam colhidos de merecimento

nosso, mas por serem frutos, flores e sementes da Seara do Senhor, lançados pela bondade

do Senhor, no solo de nossos corações. E, ao fazê-lo, rogamos, a Ele, o Divino Semeador,

nos conceda força e diretriz, compreensão e discernimento para cultivá-los, em nosso

proveito, de modo a transformarmos a nossa área de ação em gleba de amor e luz para a

Vida Eterna.

Emmanuel

(Uberaba, 18 de abril de 1968)

1 - CULTO CRISTÃO NO LAR

O culto do Evangelho no lar não é uma inovação. É uma necessidade em toda parte, onde o

cristianismo lança raízes de aperfeiçoamento e sublimação.

A Boa Nova seguiu da manjedoura para as praças públicas e avançou da casa humilde de

Simão Pedro para a glorificação de Pentecostes.

A palavra do Senhor soou, primeiramente, sob o tato simples de Nazaré e, certo, se fará

ouvir, de novo, por nosso intermédio, antes de tudo, no circulo dos nossos familiares e

afeiçoados, com os quais devemos atender as obrigações que nos competem no tempo.

Quando o ensinamento do Mestre vibra entre as quatro paredes de um templo doméstico, os

pequeninos sacrifícios tecem a felicidade comum.

A observação impensada é ouvida sem revolta.

A calunia é isolada no algodão do silêncio.

A enfermidade é recebida com calma.

O erro alheio obtém compaixão.

A maldade não encontra brechas para insinuar-se.

E ai, dentro desse paraíso que alguns já estão edificando, a beneficio deles e dos outros, o

estimulo é cântico de solidariedade incessante, a bondade é uma fonte inexaurível de paz e

entendimento, a gentileza é inspiração de todas as horas, o sorriso é a senha de cada um e

a palavra permanece revestida de luz, vinculada ao amor que o Amigo Celeste nos legou.

Somente depois da experiência evangélica do lar, o coração está realmente habilitado para

distribuir o pão divino da Boa Nova, junto da multidão, embora devamos o esclarecimento

amigo e o conselho santificante aos companheiros da ramagem humana em todas as

circunstâncias.

Não olvides, assim, os impositivos da aplicação com o Cristo, no santuário familiar, onde nos

cabe o exemplo da paciência, compreensão, fraternidade, serviço, fé e bom animo, sob o

reinado legitimo do amor, porque, estudando a Palavra do Céu em quatro Evangelhos, que

constituem o testamento da luz, somos cada um de nós, o quinto Evangelho inacabado, mas

vivo e atuante, que estamos escrevendo com os próprios testemunhos, a fim de que a nossa

vida seja uma revelação de Jesus, aberta ao olhar e a apreciação de todos, sem

necessidade de utilizarmos muitas palavras na advertência ou na pregação.

Emmanuel

2 - JESUS EM CASA

O culto do Mestre, em casa,

É novo sol que irradia

A música da alegria

Em santa e bela canção.

É a glória de Deus que vaza

O dom da Graça Divina,

Que regenera e ilumina

O templo do coração.

Ouvida a bênção da prece,

Na sala doce e tranqüila,

A lição do bem cintila

Como um poema a brilhar.

O verbo humano enaltece

A caridade e a esperança,

Tudo é bendita mudança

No plano familiar.

Anula-se a malquerença,

A frase é contente e boa.

Quem guarda ofensas, perdoa

Quem sofre, agradece à cruz.

A maldade escuta e pensa

E o vício da rebeldia

Perde a máscara sombria...

Toda névoa faz-se luz!

Na casa fortalecida

Por semelhante alimento,

Tudo vibra entendimento

Sublime e renovador.

O dever governa a vida

Vozes brandas falam calmas....

É Jesus chamando as almas.

A o reino do Eterno Amor!

Irene S. Pinto

3 - ANGUSTIA MATERNA

O coração materno é uma taça de amor em que a vida se manifesta no mundo.

Ser mãe é ser um poema de reconforto e carinho, proteção e beleza.

Entretanto, quão grave é o oficio da verdadeira maternidade!...

Levantam-se monumentos de progresso entre os homens e devemo-los, em grande parte, às

mães abnegadas e justas, mas erguem-se penitenciarias sombrias e devemo-las, na mesma

proporção, as mães indiferentes e criminosas.

É que, muitas vezes, transformamos o mel da ternura, destinado por Deus a alimentação dos

servidores da terra, em veneno do egoísmo que gera monstros.

Fala-vos pobre mulher desencarnada, suportando, nas esferas inferiores, o peso de imensa

angustia.

Resumirei meu caso para não inquietar-vos com a minha dor.

Moça ainda, desposei Claudino, um homem digno e operoso, que ganhava honestamente o

pão de dia em atividades comerciais.

Um filhinho era o maior ideal de nossos corações entrelaçados no mesmo sonho.

E, por essa razão, durante seis anos consecutivos orei fervorosamente suplicando a Deus nos

concedesse essa benção...

Uma criança que nos trouxesse a verdadeira alegria, que nos consolidasse o reino de amor e

felicidade...

Depois de seis anos, o filhinho querido vagia em nossos braços.

Chamamos-lhe Pedro, em homenagem ao segundo imperador do Brasil, cuja personalidade

nos merecia entranhado respeito.

Contudo, desde as primeiras horas em que me fizera mãe, inesperado exclusivismo me tomou

o espírito fraco.

Acalentei meu filho como se a alma de uma leoa me despertasse no seio.

Não obstante os protestos de meu marido, criei Pedro tão somente para a minha admiração,

para o meu encantamento e para o circulo estreito de nossa casa.

Muitas vezes perdia-me em cismas fantasiosas, arquitetando para ele um futuro diferente, no

qual mais rico e mais poderoso que os outros homens vivesse consagrado à dominação.

Por esse motivo, mal ensaiando os primeiros passos, Pedro, estimulado por minha leviandade

e invigilância, procurava ser forte em mau sentido.

Garantido por mim, apedrejava a casa dos vizinhos, humilhava os companheiros e entregavase

no templo domestico, aos caprichos que bem entendesse.

Debalde Claudino me advertia, atencioso.

Meus princípios, porém, eram diversos dos dele e eu queria meu filho, para vaidosamente

reinar.

Na escola primária, Pedro se fez pequenino demônio.

Desrespeitava, perturbava, destruía...

Ainda assim, vivia eu mesma questionando com os professores, para que lhe fossem

assegurados privilegio especiais.

A criança era transferida de estabelecimento a estabelecimento, porque instrutores e

serventes me temiam a agressividade sempre disposta a ferir

Em razão disso, na primeira mocidade, vi meu filho incapacitado para mais amplos estudos.

A índole de Pedro não se compadecia com qualquer disciplina, porque eu, sua mãe, lhe

favorecera o despotismo, a vaidade e o orgulho gritantes.

Quando nosso rapaz completou dezesseis anos, o pai amoroso e correto providenciou-lhe

tarefa digna, mas, findo o terceiro dia de trabalho, Pedro chegou em casa choramingando, a

queixar-se do chefe, e eu, em minha imprudência, lhe aceitei as lamentações e exigi que

Claudino lhe dobrasse a mesada, retirando-o do emprego em que , a meu ver, apenas

encontraria pesares e humilhações.

O esposo me fez ver a impropriedade de semelhante procedimento; no entanto, amava-me

demais para contrariar-me os caprichos e, a breve tempo, nosso filho entregou-se a deploráveis

dissipações.

Aquele para quem idealizara um futuro de rei, chegava ao lar em horas avançadas da noite,

cambaleando de embriaguez..

O olhar piedoso de Claudino para as minhas lágrimas dava-me a entender que as minhas

preocupações surgiam demasiado tarde.

Todos os meus cuidados foram então inúteis.

Gastador e viciado, Pedro confiou-se a bebida, à jogatina, comprometendo-se num estelionato

de graves proporções, em que o nome paterno se envolveu numa divida muito superior as

possibilidades de nossa casa.

Claudino, desditoso e envergonhado, adoeceu, sem que os médicos lhe identificassem a

enfermidade, falecendo após longos meses de martírio silencioso.

Morto aquele que me fora companheiro devotadíssimo, vendi nossa residência para solver

grandes débitos.

Recolhi-me com Pedro num domicilio modesto; entretanto, embora me empregasse, aos

cinqüenta anos, para atender-lhe as necessidades, comecei a sofrer, das mãos de meu filho

ébrio, dilacerações e espancamentos.

Certa noite, não pude conter-lhe os criminosos impulsos e caí golfando sangue...

Internada num hospital de emergência, senti medo de partilhar o mesmo teto com o homem

que meu ventre gerara com desvelado carinho e que se me transformara em desapiedado

verdugo.

Fugi-lhe, assim, ao convívio.

Procurei velha companheira da mocidade, passando a morar com ela num bairro pobre.

E, juntas, organizamos pequeno bazar de quinquilharias.

Pensava em meu filho, agora, entre a saudade e a oração, entregando-o a proteção da Virgem

Santíssima.

Finda a tarefa diária, recolhia-me à sos em singelo aposento, trazendo em minhas mãos o

retrato de Pedro e rogando ao anjo dos Desvalidos amparasse aquele cuja posição moral eu

apenas soubera agravar com desleixo delituoso.

Amealhei algum dinheiro...

Dez anos correram apressados sobre a minha nova situação.

E porque as nossas migalhas viviam entesouradas em meu quarto de velha indefesa, cada

noite me armava de um revolver sob o travesseiro, ao mesmo tempo que desbotada fotografia

era acariciada por minhas mãos.

Numa noite chuvosa e escura, observei que um homem me rondava o leito humilde.

Alteava-se a madrugada.

O desconhecido vasculhava gavetas procurando algo que lhe pudesse, naturalmente, atender

a viciação.

Não hesitei um momento.

Saquei da arma e buscava a mira correta para que o tiro fosse desfechado com segurança,

quando a luz de um relâmpago penetrou a vidraça...

Apavorada, reconheci, no semblante do homem que me invadia a casa, meu filho Pedro,

convertido em ladrão.

Esmoreceram-se-me os braços.

Quis gritar, mas não pude.

A comoção insofreável como que me estrangulava a garganta.

Contudo, através do mesmo clarão, Pedro me vira armada e bradou, sem reconhecer-me de

pronto:

- Não me mates, megera! Não me mates!

Avançou sobre mim como fera sobre a presa vencida e, despojando-me do revolver a penderme

das mãos desfalecentes, sufocou-me com os dedos que eu tantas vezes tinha acariciado, e

que me asfixiavam, agora, como garras assassinas...

Não consegui, realmente, pronunciar uma só palavra.

No entanto, ligada ainda ao meu corpo, meus olhos e meus ouvidos funcionavam eficientes.

Registrei-lhe o salto rápido sobre o acendedor de luz...

Naturalmente, ele agora contava simplesmente com um cadáver.

Contemplei-o com a ternura de mulher que ainda ama, apesar de sentir-se em derrocada

suprema, e notei que Pedro se inclinou, instintivamente, para minha mão esquerda, crispada, a

guardar-lhe a fotografia.

Horrorizado, exclamou:

- Mãe, minha mãe! Pois és tu?

Para falar com franqueza, daria tudo para volver ao equilíbrio orgânico, acariciar-lhe de novo

os cabelos e dizer-lhe: - "Filho querido, não se preocupe! Regenere-se e sejamos felizes

voltando a viver juntos! Estou velha e cansada... Fique comigo! Fique comigo!..."

Entretanto, minha língua jazia inanimada e minhas mãos estavam hirtas.

Lagrimas ardentes borbotavam-me dos olhos parados, enquanto a voz querida me gritava

estridente:

- Mamãe! Mamãe! Minha mãe!...

Um sono profundo, pouco a pouco, se apoderou de mim e somente mais tarde acordei numa

casa de socorro espiritual, onde pude reconstituir minhas forças para empreender a restauração

de minha alma diante da Lei.

No entanto, até agora, busco meu filho para rogarmos juntos a benção da reencarnação em

que eu possa extirpar-lhe do sentimento a hera maldita do orgulho e do egoísmo, da viciação e

da crueldade.

E enquanto sofro as conseqüências de meus erros deliberados, posso clamar para as minhas

companheiras do mundo:

- Mães da Terra, educai vossos filhos!

Afagai-os no carinho e na retidão, na justiça e no bem.

Uma criança no berço é um diamante do Céu para ser burilado.

Lembrai-vos de que o próprio Deus, em conduzindo a terra o seu Filho Divino, Nosso Senhor

Jesus Cristo, fê-lo nascer numa estrebaria, deu-lhe trabalho numa oficina singela, induziu-o a

viver em serviço dos semelhantes e permitiu que Ele, o Justo, fosse imerecidamente imolado aos

tormentos da cruz.

Sebastiana Pires

4 - MEU LAR

Meu lar é um ninho quente, belo e doce,

Meu generoso e abençoado asilo,

Onde meu coração vive tranqüilo

Na sacrossanta paz que Deus me trouxe.

Meu refúgio sereno de esperança,

Nele encontro essa luz terna e divina

Do amor que aperfeiçoa, ampara e ensina

Minhalma ingênua e frágil de criança.

O lar é a minha escola mais querida,

Doce escola em que nunca me confundo,

Onde aprendo a ser nobre para o mundo

E a ser alegre e forte para a vida.

João de Deus

5 - NO REINO DOMÉSTICO

Você, meu amigo, pergunta que papel desempenhará o Espiritismo, na ciência das relações

sociais, e, muito simplesmente, responderei que, aliado ao Cristo, o nosso movimento

renovador é a chave da paz, entre as criaturas.

Já terá refletido, porventura, na importância da compreensão generalizada, com respeito à

justiça que nos rege a vida, e à fraternidade que nos cabe construir na Terra?

A sociologia não é a realização de gabinete. É obra viva que interessa o cerne do homem, de

modo a plasmar-lhe o clima de progresso substancial.

Reporta-se você ao amargo problema dos casamentos infelizes, como se o matrimônio fosse

o único enigma na peregrinação humana, mas se esquece de que a alma encarnada é

surpreendida, a cada passo, por escuros labirintos na vida de associação.

Habitualmente, renascem juntos, sob os elos da consangüinidade, aqueles que ainda não

acertaram as rodas do entendimento, no carro da evolução, a fim de trabalharem com o

abençoado buril da dificuldade sobre as arestas que lhes impedem a harmonia. Jungidos à

máquina das convenções respeitáveis, no instituto familiar, caminham, lado a lado, sob os

aguilhões da responsabilidade e da traição, sorvendo o remédio amargoso da convivência

compulsória para sanarem velhas feridas imanifestas.

E nesse vastíssimo roteiro de Espíritos em desajuste, não identificaremos tão somente os

cônjuges infortunados. Além deles, há fenômenos sentimentais mais complexos. Existem

pais que não toleram os filhos e mães que se voltam, impassíveis, contra os próprios

descendentes. Há filhos que se revelam inimigos dos progenitores e irmãos que se

exterminam dentro do magnetismo degenerado da antipatia congênita, dilacerando-se uns

aos outros, com raios mortíferos e invisíveis do ódio e do ciúme, da inveja e do despeito,

apaixonadamente cultivados no solo mental.

Os hospitais e principalmente os manicômios apresentam significativo número de enfermos,

que não passam de mutilados espirituais dessa guerra terrível e incruenta na trincheira

mascarada sob o nome de lar. Batizam-nos os médicos com rotulagens diversas, na esfera

da diagnose complicada; entretanto, na profundez das causas, reside a influência maligna da

parentela consangüínea que, não raro, copia as atitudes da tribo selvagem e enfurecida.

Todos os dias, semelhantes farrapos humanos atravessam os pórticos das casas de saúde

ou da caridade, à maneira de restos indefiníveis de náufragos, perdidos em mar tormentoso,

procurando a terra firme da costa, através da onda móvel.

Não tenha dúvida.

O homicídio, nas mais variadas formas, é intensamente praticado sem armas visíveis, em

todos os quadrantes do Planeta.

Em quase toda a parte, vemos pais e mães que expressam ternura, ante os filhos

desventurados, e que se revoltam contra eles toda vez que se mostrem prósperos e felizes.

Há irmãos que não suportam a superioridade daqueles que lhes partilham o nome e a

experiência, e companheiros que apenas se alegram com a camaradagem nas horas de

necessidade e infortúnio.

Ninguém pode negar a existência do amor no fundo das multiformes uniões a que nos

referimos. Mas esse amor ainda se encontra, à maneira do ouro inculto, incrustado no

cascalho duro e contundente do egoísmo e da ignorância que às vezes, matam sem a

intenção de destruir e ferem sem perceber a inocência ou a grandeza de suas vítimas.

Por isso mesmo, o Espiritismo com Jesus, convidando-nos ao sacrifício e à bondade, ao

conhecimento e ao perdão, aclarando a origem de nossos antagonismos e reportando-nos

aos dramas por nós todos já vividos no pretérito, acenderá um facho de luz em cada

coração, inclinando as almas rebeldes ou enfermiças à justa compreensão do programa

sublime de melhoria individual, em favor da tranqüilidade coletiva e da ascensão de todos.

Desvelando os horizontes largos da vida, a Nova Revelação dilatará a esperança, o estímulo

à virtude e a educação em todas as inteligências amadurecidas na boa vontade, que

passarão a entender nas piores situações familiares pequenos cursos regenerativos, dandose

pressa em aceitá-los com serenidade e paciência, de vez que a dor e a morte são

invariavelmente os oficiais da Divina Justiça, funcionando com absoluto equilíbrio, em todas

as direções, unindo ou separando almas, com vistas à prosperidade do Infinito Bem.

Assim, pois, meu caro, dispense-me da obrigação de maiores comentários, que se fariam

tediosos em nossa época de esclarecimento rápido, através da condensação dos assuntos

que dizem respeito ao soerguimento da Terra.

Observe e medite.

E, quando perceber a imensa força iluminativa do Espiritismo Cristão, você identificará Jesus

como sendo o Sociólogo Divino do Mundo, e verá no Evangelho o Código de Ouro e Luz, em

cuja aplicação pura e simples reside a verdadeira redenção da Humanidade.

Irmão X

6 - COLOMBINA

Mascarada mulher o rabecão trouxera.

Morrera em pleno baile a frágil Colombina

E, no egrégio salão de culto à Medicina, |.

O professor leciona, em voz veemente e austera:

-“Rapazes, contemplai! É rameira e menina.

Tombou ébria novicio e com certeza era

Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,

Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina”.

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,

Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,

Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,

O mestre cambaleia e chora junto dela...

Encontrara na morta a sua própria filha.

Júlia Cortines

7 - MÃE

Quando Jesus ressurgiu do túmulo, a negação e a dúvida imperavam no círculo dos

companheiros.

Voltaria Ele? perguntavam, perplexos. Que,se impossível. Seria Senhor da Vida Eterna quem

se entregara na cruz, expirando entre malfeitores?

Maria Madalena, porém, a renovada,, vai ao sepulcro de manhãzinha. E, maravilhosamente

surpreendida, vê o Mestre, ajoelhando-se-lhe aos pés. Ouve-lhe a voz repassada de ternura,

fixa-lhe o olhar sereno e magnânimo. Entretanto, para que a visão se lhe fizesse mais nítida,

foi necessário organizar o quadro exterior. O jardim reacendia perfumes para a sua

sensibilidade feminina, a sepultura estava aberta,compelindo-a a raciocinar. Para que a

gravação das imagens se tornasse bem clara, lavando-lhe todas as dúvidas da imaginação,

Maria julgou a princípio que via o jardineiro. Antes da certeza, a perquirição da mente

precedendo a consolidação da fé. Embriagada de júbilo, a convertida de Magdala transmite a

boa-nova aos discípulos confundidos. Os olhos sombrios de quase todos se enchem de novo

brilho.

Outras mulheres, como Joana de Cusa e Maria, mãe de Tiago, dirigem-se, ansiosas, para o

mesmo local, conduzindo perfumes e preces gratulatórias. Não enxergam o Messias, mas

entidades resplandecentes lhes falam do Mestre que partiu.

Pedro e João acorrem, pressurosos, e ainda vêem a pedra removida, o sepulcro vazio e

apalpam os. Lençóis abandonados.

No colégio dos seguidores, travam-se polêmicas discretas.

Seria? não seria?

Contudo, Jesus, o Amigo Fiel, mostra-se aos aprendizes no caminho de Emaús, que lhe

reconhecem a presença ao partir do pão e, depois, aparece aos onze cooperadores, num

salão de Jerusalém. As portas permanecem fechadas e, no entanto, o Senhor demora-se,

junto deles, plenamente materializado. Os discípulos estão deslumbrados, mas o olhar do

Messias é melancólico. Diz-nos João Marcos que o Mestre lançou-lhes em rosto a

incredulidade e a dureza de coração. Exorta-os a que o vejam, que o apalpem. Tomé chega

a, consultar-lhe a chagas para adquirir a certeza do que observa. O Celeste Mensageiro fazse

ouvir para todos. E, mais tarde, para que se convençam os companheiros de sua,

presença e da continuidade de seu amor, segue-os, em espírito, no labor da pesca. Simão

Pedro registra-lhe carinhosas recomendações, ao lançar as redes, e encontra-o nas preces

solitárias da noite.

Em seguida, para que os velhos amigos se certifiquem da ressurreição, materializa-se num

monte, aparecendo a quinhentas pessoas da Galiléia.

No Pentecostes, a fim de que os homens lhe recebam o Evangelho do Reino, organiza

fenômenos luminosos e lingüísticos, valendo-se da colaboração dos companheiros, ante

judeus e romanos, partos e medas, gregos e elamitas, cretenses e árabes. Maravilha-se o

povo. Habitantes da Panfília e da Líbia, do Egito e da Capadócia ouvem a Boa-Nova no

idioma que lhes é familiar.

Decorrido algum tempo, Jesus resolve modificar o ambiente farisaico e busca Saulo de Tarso

para o seu ministério ; entretanto, para isso, é compelido a materializar-se no caminho de

Damasco, a plena luz do dia. O perseguidor implacável, para convencer-se, precisa

experimentar a cegueira temporária, após a claridade sublime; e para que Ananias, o servo

leal, dissipe o temor e vá socorrer o ex-verdugo, é imprescindível que Jesus o visite, em

pessoa, lembrando-lhe o obséquio fraternal.

Todos os companheiros, aprendizes, seguidores e beneficiários solicitaram a cooperação

dos sentidos físicos para sentir a presença do Divino Ressuscitado. Utilizaram-se dos olhos

mortais, manejaram o tato, aguçaram os ouvidos...

Houve, contudo, alguém que dispensou todas as toques e associações mentais, vozes e

visões. Foi Maria, sua Divina Mãe. O Filho Bem-Amado vivia eternamente, no infinito mundo

de seu co-ração. Seu olhar contemplava-o, através de todas as estrelas do Céu e

encontrava-lhe o hálito perfumado em todas as flores da Terra. A voz d’Ele vibrava em sua

alma e para compreender-lhe a sobrevivência bastava penetrar o iluminado santuário de ai

mesma. Seu Filho – seu amor e sua vida – poderia, acaso, morrer? E embora a saudade

angustiosa, consagrou-se à fé no reencontro espiritual, no plano divino, sem lágrimas, sem

sombras e sem morte!...

....................................................................................................................................................

Homens e mulheres do mundo, que haveis de afrontar, um dia, a esfinge do sepulcro, é

possível que estejais esquecidos plenamente, no dia imediato ao de vossa partida, a

caminho do Mais Além. Familiares e amigos, chamados ao imediatismo da luta humana,

passarão a desconhecer-vos, talvez, por completo. Mas, se tiverdes um coração de mãe

pulsando na Terra, regozijar-vos-eis, além da escura fronteira de cinzas, porque aí vivereis

amados e felizes para sempre!

Irmão X

8 - SEMPRE AMOR

Torno, ansioso, da morte à casa que deixara...

Os meus, o lar, o amor... Eis tudo o que ambiciono,

Entro. Lá fora, o parque, a tristeza, o abandono...

Mormaço, plenilúnio, o vento, a noite clara...

Debalde grito, corro, observo, inspeciono...

Subo. Um morcego ronda pequena almenara...

Nada. Ninguém me espera. A vida desertara.

Tudo silêncio e pó de tapera sem dono...

Sofro desilusão que o mundo não descreve,

Mas alguém abre a porta e me chama, de leve...

Fito pobre mulher... Na face, o olhar sem brilho...

Conheço-a!... Minha mãe!... Quanta saudade, quanta!...

Vem lembrar-me a rezar... Beijo-lhe as mãos de santa!...

Ela chora e repete: “Ah! meu filho! meu filho!...

Jorge Matos

9 - LUZ NO LAR

Organizemos o nosso agrupamento doméstico do Evangelho. O Lar é o coração do

organismo social.

Em casa, começa nossa missão no mundo.

Entre as paredes do templo familiar, preparamo-nos para a vida com todos.

Seremos, lá fora, no grande campo da experiência pública, o prosseguimento daquilo que já

somos na intimidade de nós mesmos.

Fujamos à frustração espiritual e busquemos no relicário doméstico o sublime cultivo dos

nossos ideais com Jesus. O Evangelho foi iniciado na Manjedoura e demorou-se na casa

humilde e operosa de Nazaré, antes de espraiar-se pelo mundo.

Sustentemos em casa a chama de nossa esperança, estudando a Revelação Divina,

praticando a fraternidade e crescendo em amor e sabedoria, porque, segundo a promessa do

Evangelho Redentor, "onde estiverem dois ou três corações em Seu Nome", aí estará Jesus,

amparando-nos para a ascensão à Luz Celestial, hoje, amanhã e sempre.

Scheilla

10 - CONVERSA EM CASA

O suor da paciência

Encontra a luz por remate,

Não há provocação difícil,

O medo é que nos abate.

Conserva-te nobre e simples

Para que o bem não se torça.

Muita vez, a ingenuidade

É grande sinal de força.

Venceste? Trabalha sempre,

Sem detenção no passado.

O herói que vive da fama

É um vivo morto enfeitado.

No que tange a confidências,

Fala a Deus em tua prece.

Quem melhor guarda um segredo

É aquele que o desconhece.

Cultiva a reta intenção

Em tua própria defesa.

Mesmo vitima do engano,

Sinceridade é grandeza.

Onde tens o coração

Reténs o próprio tesouro.

O dinheiro que escraviza

É dura algema de ouro.

Compra, guarda e ajunta livros,

Mas estuda, dia a dia.

Mostrar a biblioteca,

Não mostra sabedoria.

Perdoa e ajuda amparando

Como as terras generosas,

Que dão, em troco de estrume,

Pão e bênção, vida e rosas.

Casimiro Cunha

11 - NA INTIMIDADE DOMÉSTICA

A história do bom samaritano, repetidamente estudada, oferece conclusões sempre novas.

O viajante compassivo encontra o ferido anônimo na estrada.

Não hesita em auxiliá-lo.

Estende-lhe as mãos.

Pensa-lhe as feridas.

Recolhe-o nos braços sem qualquer idéia de preconceito.

Condu-lo ao albergue mais próximo.

Garante-lhe a pousada.

Olvida conveniências e permanece junto dele, enquanto necessário.

Abstém se de indagações.

Parte ao encontro do dever, assegurando-lhe a assistência com os recursos da própria bolsa,

sem prescrever-lhe obrigações.

***

Jesus transmitiu-nos à parábola, ensinando-nos o exercício de caridade real, mas, até agora,

transcorridos quase dois milênios, aplicamo-la, via, de regra, às pessoas quê não nos

comungam o quadro particular Quase sempre, todavia, temos os caídos do reduto

doméstico.

Quase sempre, todavia, temos os caídos do reduto doméstico.

Não descem de Jerusalém para Jericó, más tombam da fé para a desilusão e da alegria para

dor, espoliados nas melhores esperanças, em rudes experiências.

Quantas vezes, surpreendemos as vítimas da obsessão e do erro, da tristeza e da provação,

dentro de casa!

Julgamos, assim, que a parábola do bom Samaritano produzirá também efeitos admiráveis,

toda vez que nos decidirmos a usá-la, na vida íntima, compreendendo e auxiliando aos

vizinhos e companheiros, parentes e amigos sem nada exigir e sem nada perguntar.

Emmanuel

12 - LAMENTO PATERNO

Ah! meu filho, na concha de teu peito,

Via-te o coração por céu vindouro,

Encerravas contigo, meu tesouro,

O futuro risonho, alto e perfeito.

Entretanto, prendi-te a cruzes de ouro,

Cujo peso carregas sem proveito,

Abatido, cansado, insatisfeito,

Arrojado a medonho sorvedouro...

Recolheste, no encanto de meu jugo,

O fascínio da posse por verdugo

E a preguiça forjando horrendas pragas.

Hoje, chamo-te em vão ... Ouves apenas

O dinheiro vazio que armazenas

Na demência da usura em que te apagas!...

José Guedes

13 - MÃE

Um dia, a Mulher solitária e atormentada chegou ao Céu e, rojando-se, em lágrimas, diante

do Eterno Pai, suplicou:

- Senhor, estou só! Compadece-te de mim.

Meu companheiro fatigado, cada dia, pede-me repouso e devo velar-lhe o sono! Quando

triunfa no trabalho, absorve-se na atividade mais intensa e, muita vez distraído, afasta-se do

lar, onde volta somente quando exausto, a fim de refazer-se. Se sofre, vem a mim, abatido

buscando restauração e conforto...

Tu, que deste flores ao arvoredo e que abriste as carícias da fonte, no seio escuro e

ressequido do solo, consagras-me, assim, ao isolamento? Reservaste a Terra inteira ao

serviço do homem que se agita, livre e dominador, sobre montes e vales, e concedes a mim

apenas o estreito recinto da casa, entre quatro paredes, para meditar e afligir-me sem

consolo? Se sou a companhia do homem, que se vale de mim para lutar e viver, quem me

acompanhará na missão a que me destinas?

O Senhor sorriu, complacente, em seu trono de estrelas fulgurantes e, afagando-lhe a

cabeça curvada e trêmula, falou compadecido:

- Dei o mundo ao homem, mas confiarei a vida ao teu coração.

Em seguida colocou-lhe nos braços uma frágil criança.

Desde então, a Mulher fez-se Mãe e passou a viver plenamente feliz.

Meimei

14 - TERNURA MATERNAL

As paredes da casa em vão procuro,

Quero dizer adeus e não consigo...

Vejo apenas o vulto amargo e amigo

Da morte que me estende o manto escuro.

Choro a estirar-me, trêmulo, inseguro;

O leito ensaia a pedra do jazido...

Padeço, clamo e indago a sós comigo,

Qual pássaro que tomba contra um muro.

A névoa espessa enreda o corpo langue.

É o terrível crepúsculo de sangue

Que me tinge de sombra os olhos baços;

Mas surge alguém, no caos que me entontece,

É a minha mãe, que alonga as mãos em prece,

Doce estrela brilhando nos meus braços!...

Ave que torna, em chaga, ao brando ninho,

Ouço divina música na sala,

É a sua voz celeste que me embala,

Motes do lar que tornam de mansinho.

Ergo-me agora... O corpo é o pelourinho

De que me desvencilho por beijá-la...

“Mãe! Minha Mãe!,,,” – suspiro, erguendo a fala,

A soluçar de júbilo e carinho

Tomo-lhe os braços em que me acrisolo

E durmo novamente no seu colo

Para acordar no berço de outra vida.

Carlos D. Fernandes

15 - VERDUGO E VÍTIMA

O rio transbordava.

Aqui e ali, na crista espumosa da corrente pesada, boiavam animais mortos os deslizavam

toras e ramarias.

Vazantes em torno davam expansão ao crescente lençol de massa barrenta.

Famílias inteiras abandonavam casebres, sob a chuva, carregando aves espantadiças,

quando não estivessem puxando algum cavalo magro.

Quirino, o jovem barqueiro, que vinte e seis anos de sol no sertão haviam enrijado de todo,

ruminava plano sinistro.

Não longe, em casinhola fortificada, vivia Licurgo, conhecido usurário das redondezas.

Todos o sabiam proprietário de pequena fortuna a que montava guarda, vigilante.

Ninguém, no entanto, poderia avaliar-lhe a extensão, porque, sozinho, envelhecera e,

sozinho, atendia às próprias necessidades.

- “O velho – dizia Quirino de si para consigo – será atingido na certa. É a primeira vez que

surge uma cheia como esta. Agarrado aos próprios haveres, será levado de roldão... E se as

águas devem acabar com tudo, por que não me beneficiar? O homem já passou dos

setenta... Morrerá a qualquer hora. Se não for hoje, será amanhã, depois de amanhã... E o

dinheiro guardado? Não poderia servir para mim, que estou moço e com pleno direito ao

futuro?...”

O aguaceiro caia sempre, na tarde fria.

O rapaz, hesitante, bateu à porta da choupana molhada.

- “Seu” Licurgo! “Seu” Licurgo!

E, ante o rosto assombrado do velhinho que assomara à janela, informou:

- Se o senhor não quer morrer, não demore. Mais um pouco de tempo e as águas chegarão.

Todos os vizinhos já se foram...

- Não, não... – resmungou o proprietário -, moro aqui há muitos anos. Tenho confiança em

Deus e no rio... Não sairei.

- Venho fazer-lhe um favor...

- Agradeço, mas não sairei.

Tomado de criminoso impulso, o barqueiro empurrou a porta mal fechada e avançou sobre o

velho, que procurou em vão reagir.

- Não me mate, assassino!

A voz rouquenha, contudo, silenciou nos dedos robustos do jovem.

Quirino largou para um lado o corpo amolecido, como traste inútil, arrebatou pequeno molho

de chaves do grande cinto e, em seguida, varejou todos os escaninhos...

Gavetas abertas mostravam cédulas mofadas, moedas antigas e diamantes, sobretudo

diamantes.

Enceguecido de ambição, o moço recolhe quanto acha.

A noite chuvosa descera completa...

Quirino toma os despojos da vítima num cobertor e, em minutos breves, o cadáver mergulha

no rio.

Logo após, volta à casa despovoada, recompõe o ambiente e afasta-se, enfim, carregando a

fortuna.

Passado algum tempo, o homicida não vê que uma sombra se lhe esgueira à retaguarda.

É o Espírito de Licurgo, que acompanha o tesouro.

Pressionado pelo remorso, o barqueiro abandona a região e instala-se em grande cidade,

com pequena casa comercial, e casa-se, procurando esquecer o próprio arrependimento,

mas recebe o velho Licurgo, reencarnado, por seu primeiro filho...

Irmão X

16 – ORAÇÃO DA CRIANÇA

Amigo. Ajuda-me agora, para que eu te auxilie depois. Não me relegues ao esquecimento,

nem me condenes à ignorância e à crueldade. Venho ao encontro de tua aspiração, de teu

convívio, de tua obra.

Em tua companhia estou na condição de argila nas mãos do oleiro. Hoje, sou sementeira,

fragilidade, promessa...

Amanhã, porém, serei tua própria realização. Corrige-me, com amor, quando a sombra do

erro envolver-me o caminho, para que a confiança não me abandone.

Protege-me contra o mal. Ensina-me a descobrir o bem. Não me afastes de Deus e ajuda-me

a conservar o amor e o respeito que devo às pessoas, aos animais e às coisas que nos

cercam.

Não me negues tua boa vontade, teu carinho e tua paciência. Tenho tanta necessidade do

teu coração, quanto a plantinha tenra precisa da água para prosperar e viver.

Dá-me tua bondade e dar-te-ei cooperação. De ti depende que eu seja pior ou melhor

amanhã.

Emmanuel

17 - A LENDA DA CRIANÇA

Dizem que o Supremo Senhor, após situar na Terra os primeiros homens, dividindo-os em

raças diversas, esperou, anos e anos, pela adesão deles ao Bem Eterno. Criando os todos

para a liberdade, aguardou pacientemente que cada um construísse o seu próprio mundo de

sabedoria e felicidade. À vista disso, com surpresa, começou a ouvir do Planeta Terrestre, ao

invés de gratidão e louvor, unicamente desespero e lágrimas, blasfêmias e imprecações, até

que, um dia, os mais instruídos, amparados no prestígio de Embaixadores Angélicos, se

elevaram até Deus, a fim de suplicarem providências especiais. E, prosternados diante do

Todo-Poderoso, rogaram cada qual por sua vez:

-Pai, tem misericórdia de nós!... Repartimos a Terra, mas não nos entendemos... Todos

reprovamos o egoísmo; no entanto, a ambição nos enlouquece e, um por um, aspiramos a

possuir o maior quinhão!...

-Oh! Senhor!... Auxilia-nos!... Deste-nos a autonomia; contudo, de que modo manejá-la com

segurança? Instruíste-nos códigos de amparo mútuo; no entanto, ai de nós!... Caímos, a

cada passo, pelos abusos de nossas prerrogativas!...

-Santo dos Santos, socorre-nos por piedade!... Concedeste-nos a paz e hostilizamo-nos uns

aos outros. Reuniste-nos debaixo do mesmo Sol!... Nós, porém, desastradamente, em

nossos desvarios, na conquista de domínio, inventamos a guerra... Ferimo-nos e

ensanguentamo-nos, à maneira de feras no campo, como se não tivéssemos, dada por ti, a

luz da razão!...

-Pai Amantíssimo, enriqueceste-nos com os preceitos da justiça; todavia, na disputa de

posições indébitas, estudamos os melhores meios de nos enganarmos reciprocamente, e,

muitas vezes, convertermos as nossas relações em armadilhas nas quais os mais astuciosos

transfiguram os mais simples em vítimas de alucinadoras paixões... Ajuda-nos e liberta-nos

do mal!...

-Ó Deus de Infinita Bondade, intervém a nosso favor! Inflamaste-nos os corações com a

chama do gênio, mas habitualmente resvalamos para os despenhadeiros do vício... Em

muitas ocasiões, valemo-nos do raciocínio e da emoção para sugerir a delinqüência ou

envenenar-nos no desperdício de forças, escorregando para as trevas da enfermidade e da

morte!...

Conta-se que o Todo-Misericordioso contemplou os habitantes da Terra, com imensa

tristeza, e exclamou, amorosamente:

-Ah! Meus filhos!... Meus filhos!... Apesar de tudo, eu vos criei livres e livres sereis para

sempre, porque, em nenhum lugar do Universo, aprovarei princípios de escravidão!...

-Oh! Senhor – soluçaram os homens - compadeça-te então de nós e renova-nos o futuro!...

Queremos acertar, queremos ser bons!...

O Todo-Sábio meditou, meditou...

Depois de alguns minutos, falou comovido:

-Não posso modificar as Leis Eternas. Dei-vos o Orbe Terreno e sois independentes para

estabelecer nele a base de vossa ascensão aos Planos Superiores. Tereis, constantemente

e seja onde for, o que fizerdes, em função de vosso próprio livre arbítrio!... Conceder-vos-ei,

porém, um tesouro de vida e renovação, no qual, se quiserdes, conseguirei engrandecer o

progresso e abrilhantar o Planeta... Nesse escrínio de inteligência e de amor, disporeis de

todos os recursos para solidificar a fraternidade, dignificar a ciência, edificar o bem comum e

elevar o direito... De um modo ou de outro, todos tereis, doravante, esse tesouro vivo, ao

vosso lado, em qualquer parte da Terra, a fim de que possais aperfeiçoar o mundo e

santificar o porvir!...

Dito isso, o Senhor Supremo entrou nos Tabernáculos Eternos e voltou de lá trazendo um

ser pequenino nos braços paternais...

Nesse augusto momento, os atormentados filhos da Terra receberam de Deus a primeira

criança.

Irmão X

18 - O BERÇO

Ajudemos a criança! O berço é o ponto vivo em que a educação começa a brilhar.

BEZERRA DE MENEZES

***

O menino que agora enjeitamos à porta da tempestade será mais tarde um cultivador da

tempestade do mundo

CAIRBAR SCHUTEL

***

Todo berço que sofre é uma porta sombria.

Traze o anjo que chora a benção de alegria

Da bondade cristã.

E estarás cooperando, nobremente,

Na formação do mundo diferente

Para a Luz de Amanhã

CARMEN CINIRA

***

O berço infeliz é um poema do Céu, dilacerando a Terra.

RODRIGUES DE ABREU

***

A criança é uma lúcida promessa,

Convidando-te ao templo do amor puro.

Em todo berço a vida recomeça,

Procurando a vitória do futuro.

CRUZ E SOUZA

19 - ABORTO DELITUOSO

Comovemo-nos, habitualmente, diante das grandes tragédias que agitam a opinião.

Homicídios que convulsionam a imprensa e mobilizam largas equipes policiais...

Furtos espetaculares que inspiram vastas medidas de vigilância...

Assassínios, conflitos, ludíbrios e assaltos de todo jaez criam a guerra de nervos, em toda

parte; e, para coibir semelhantes fecundações de ignorância e delinqüência, erguem-se

cárceres e fundem-se algemas, organiza-se o trabalho forçado e em algumas nações a

própria lapidação de infelizes é praticada na rua, sem qualquer laivo de compaixão.

Todavia, um crime existe mais doloroso, pela volúpia de crueldade com que é praticado, no

silêncio do santuário doméstico ou no regaço da Natureza...

Crime estarrecedor, porque a vítima não tem voz para suplicar piedade e nem braços

robustos com que se confie aos movimentos da reação.

Referimo-nos ao aborto delituoso, em que pais inconscientes determinam a morte dos

próprios filhos, asfixiando-lhes a existência, antes que possam sorrir para a bênção da luz.

****

Homens da Terra, e, sobretudo vós, corações maternos chamados à exaltação do amor e da

vida, abstende-vos de semelhante ação que vos desequilibra a alma e entenebrece o

caminho!

Fugi do satânico propósito de sufocar os rebentos do próprio seio, porque os anjos tenros

que rechaçais são mensageiros da Providência, assomantes no lar em vosso próprio

socorro, e, se não há legislação humana que vos assinale a torpitude do infanticídio, nos

recintos familiares ou na sombra da noite, os olhos divinos de Nosso Pai vos contemplam do

Céu, chamando-vos, em silêncio, às provas do reajuste, a fim de que se vos expurgue da

consciência a falta indesculpável que perpetrastes.

Emmanuel

20 - FILHO QUE NÃO NASCEU

Fui trazido ao teu colo e sussurro, baixinho:

— “Mãe, eu serei na carne o sonho de teu sonho!...”

Depois, em prece ardente, em ti meus olhos ponho,

Pássaro fatigado ante a úsnea do ninho.

Abraço-te. És comigo a esperança e o caminho...

Em seguida — oh! Irrisão! —, eis que, num caos medonho,

Expulsas-me a veneno, e, bruto, me empeçonho,

Serpe oculta a ferir-te em silêncio escarninho.

Já me dispunha a dar o golpe extremo, quando

Surge alguém que me obriga a deixar-te dançando

Em formoso salão onde o prazer fulgura.

Passa o tempo. Hoje volto... É o amor que em mim arde.

Mas encontro-te, oh! Mãe, a gemer, triste e tarde,

Sombra que foi mulher, enjaulada à loucura...

José Guedes

21 - ANTE O DIVÓRCIO

Toda perturbação no lar, frustando-lhe a viagem no tempo, tem causa específica. Qual

acontece ao comboio, quando estaca indebitamente ou descarrila, é imperioso angariar a

proteção devida para que o carro doméstico prossiga adiante.

No transporte caseiro, aparentemente ancorado na estação do cotidiano (e dizemos

aparentemente, porque a máquina familiar está em movimento e transformação incessantes),

quase todos os acidentes se verificam pela evidência de falhas diminutas que, em se

repetindo indefinidamente, estabelecem, por fim, o desastre espetacular.

Essas falhas, no entanto, nascem do comportamento dos mais interessados na sustentação

do veículo ou, propriamente, do marido e da mulher, chamados pela ação da vida a

regenerar o passado ou a construir o futuro pelas possibilidades da reencarnação no

presente, falhas essas que se manifestam de pequeno desequilíbrio, até que se desencadeie

o desequilíbrio maior.

Nesse sentido, vemos cônjuges que transfiguram conforto em pletora de luxo e dinheiro,

desfazendo o matrimônio em facilidades loucas, como se afoga uma planta por excesso de

adubo, e observamos aqueles outros que o sufocam por abuso de sovinice; notamos os que

arrasam a união conjugal em festas sociais permanentes e assinalamos os que a destroem

por demasia de solidão; encontramos os campeões da teimosia que acabam com a paz em

família, manejando atitudes do contra sistemático, diante de tudo e de todos, e identificamos

os que a exterminam pelo silêncio culposo, à frente do mal; surpreendemos os fanáticos da

limpeza, principalmente muitas de nossas irmãs, as mulheres, quando se fazem mártires de

vassoura e enceradeira, dispostas a arruinar o acordo geral em razão de leve cisco nos

móveis, e somos defrontados pelos que primam no vício de enlamear a casa, desprezando a

higiene.

Equilíbrio e respeito mútuo são as bases do trabalho de quantos se propõem garantir a

felicidade conjugal, de vez que, repitamos, o lar é semelhante ao comboio em que filhos,

parentes, tutores e afeiçoados são passageiros.

Alguém perguntará como situaremos o divórcio nestas comparações. Divorciar, a nosso ver,

é deixar a locomotiva e seus anexos. Quem responde pela iniciativa da separação decerto

que larga todo esse instrumental de serviço à própria sorte e cada consciência é responsável

por si. Não ignoramos que o trem caseiro corre nos trilhos da existência terrestre, com

autorização e administração das Leis Orgânicas da Providência Divina e, sendo assim, o

divórcio, expressando desistência ou abandono de compromisso, é decisão lastimável,

conquanto às vezes necessária, com raízes na responsabilidade do esposo ou da esposa

que, a rigor, no caso, exercem as funções de chefe e maquinista.

Emmanuel

22 - ORAÇÃO À MULHER

Missionária da vida:

Ampara o homem para que o homem te ampare.

Não te conspurques no prazer, nem te mergulhes no vício.

A felicidade da Terra depende de ti, como o fruto depende da árvore.

Mãe, sê o anjo do lar.

Esposa, auxilia sempre.

Companheira, acende o lume da esperança.

Irmã, sacrifica-te e ajuda.

Mestra, orienta o caminho.

Enfermeira, compadece-te.

Fonte sublime, se as feras do mal te poluíram as águas, imita a corrente cristalina que, no

serviço infatigável a todos, expulsa do próprio seio a lama que lhe atiram.

Por mais que te aflija a dificuldade, não te confies à tristeza ou ao desânimo.

Lembra os órfãos, os doentes, os velhos e os desvalidos da estrada que esperam por teus

braços e sorri com serenidade para a luta.

Deixa que o trabalho tanja as cordas celestes do teu sentimento, para que não falte a música

da harmonia aos pedregosos trilhos da existência terrestre.

Teu coração é uma estrela encarcerada.

Não lhe apagues a luz, para que o amor resplandeça sobre as trevas.

Eleva-te, elevando-nos.

Não te esqueças de que trazes nas mãos a chave da vida, e a chave da vida é a glória de

Deus.

Meimei

23 - NO TEMPLO DO LAR

Indiscutivelmente, o avanço científico do mundo estabelece múltiplos sistemas de cura na

atualidade terrestre.

Vitaminas e hormônios, eletricidade e magnetismo, fluidos e melodias são recursos

empregados no fortalecimento da saúde humana.

Acreditamos, no entanto, que o culto doméstico do Evangelho é a fonte real da medicina

preventiva, sustentando as bases do equilíbrio físico-psíquico.

O centro da vicia reside na mente e a mente se nutre de emoções e idéias. É que se coloca

sob a orientação do Cristo, aceitando-Lhe o governo espiritual no campo íntimo, harmonizase

com a Boa Lei, purificando propósitos, elevando atitudes e sublimando resoluções que

edificam a consciência e o coração para a Vida Superior.

Os princípios evangélicos são elementos de vida, e convenientemente aplicados no recesso

do lar, sanam as chagas da maledicência, previnem a cólera destrutiva, curam os efeitos

desastrosos da imprudência, afastam os perigos da antipatia gratuita, balsamizam as úlceras

da desilusão e favorecem o clima da fraternidade e da confiança, suscetível de criar a

felicidade verdadeira para quantos se empenham na evolução, no reajuste, na melhoria e na

elevação.

Pensar bem é edificar o que é bom. E somente Jesus é o Mestre do pensamento reto e

purificado, a expressar em favor do erguimento comum, no repouso e no trabalho, no silêncio

e no ruído, na dor e na alegria, que constituem importantes posições de nossa viagem para

os cimos da vida.

Cultivar o Evangelho, no santuário familiar, é nortear a nossa experiência para o Reinado de

Deus, em nós e fora de nós.

Criar semelhante serviço, pois, no domicílio de nossas almas, é simples dever, porquanto,

pela palavra que ensina e ajuda, aprenderemos a abrir as portas do coração para que, na

intimidade de nós mesmos, possamos sentir a Divina Presença de Jesus, nosso Mestre e

Senhor.

Pio Ventania

24 - RENÚNCIA

Se teus pais não procuram a intimidade do Cristo, renuncia à felicidade de vê-los comungar

contigo o divino banquete da Boa Nova, e ajuda teus pais.

Se teus filhos permanecem distantes do Evangelho, renuncia ao contentamento de sentirlhes

o coração com o teu coração na senda redentora, e ajuda teus filhos.

Se teus amigos não conseguem, ainda, perceber o amor de Jesus, renuncia à ventura de

guardá-los no calor de tua alma, ante o Sol da Verdade, e ajuda teus amigos.

Renúncia com Jesus não quer dizer deserção. Expressa devotamento maior.

Nele mesmo, o Senhor, vamos encontrar o sublime exemplo.

Esquecido de muitos e por muitos relegados às agonias da negação, nem por isso se afastou

dos companheiros que lhe deram as angústias do amor-não-amado.

Ressurgindo da cruz, Ele, que atravessara sozinho os pesadelos da ingratidão e as torturas

da morte, volta ao convívio deles e lhes diz confiante:

"- Eis que estarei convosco, até o fim dos séculos."

Emmanuel

25 – CARTA PATERNA

Meu filho, não tinhas razão em favor da cólera.

Vi, perfeitamente, quando o velhinho se aproximou para servir-te.

Trazia um coração amoroso e atento que não soubeste compreender.

Deste uma ordem que o pobrezinho não ouviu tão bem, quanto desejavas. Repetiste-a e,

porque novamente te perguntasse qualquer coisa, proferiste palavras feias, que lhe feriram

as fibras mais íntimas.

Como foste injusto!...

Quando nasceste, o antigo servidor já vencera muitos invernos e servira a muita gente.

Enfraqueceram-se-lhe os ouvidos, ante as imperiosas determinações alheias.

Nunca refletiste na neblina que lhe enevoa o olhar? Adquiriu-a trabalhando à noite, enquanto

dormias, despreocupado.

Sabes porque traz ele as pernas trêmulas? Devorou muitas léguas a pé, solucionando

problemas dos outros.

Irritas-te, quando se demora a movimentar-se a teu mando. Contudo, exiges o automóvel

para a viagem de dois quilômetros.

Em muitas ocasiões, queixas-te contra ele. É relaxado aos teus olhos, tem as mãos

descuidadas e a roupa não muito limpa. Entretanto, nunca imaginaste que o apagado

servidor jamais encontrou oportunidades iguais às que recebeste. Além disto, não lhe

oferecem o ensinamento amigo e nem tempo para cogitar das próprias necessidades

espirituais.

Reclamas longos dias para examinar pequenina questão, referente ao teu bem-estar;

todavia, não lhes consagra nem mesmo uma hora por semana, ajudando-o a refletir...

Respondes, enfadado, quando o velho companheiro te pede alguns níqueis, mais não vacilas

em despender pequenas fortunas com amigos ociosos, em noitadas alegres, nas quais te

mergulhas em fantasioso contentamento.

Interrogas, ingrato : – que fizeste do dinheiro que te dei?

Esqueces que o servidor de fronte enrugada não dispôs de tempo e recurso para calcular,

com exatidão, os processos de ganhar além do necessário e não conseguiu ensejo de

ilustrar o raciocínio com o refinamento que caracteriza o teu.

Ah! meu filho quando a impaciência te visita o espírito, recorda que o monstro da ira

indesejável te bate à porta do coração. E quando a ele te entregas, imprevidente, tuas

conquistas mais elevadas tremem nos alicerces. Chego a desconhecer-te, porque a fúria dos

elementos interiores te alteram a individualidade aos meus olhos e eu não sei se passas à

condição de criança ou de demônio!...

Se não podes conter, ainda, os movimentos impulsivos de sentimentos perturbadores,

chegado o instante do testemunho, cala-te e espera.

A cólera nada edifica e nada restaura... apenas semeia desconfiança e temor, ao redor de

teus passos.

Não ameaces com a voz, nem te insurjas contra ninguém.

É provável que guardes alguma reclamação contra mim, teu pai, porque eu também sou

ainda humano. No entanto, filho, acima de nós ambos permanece o Pai Supremo, e que

seria de ti e de mim, se Deus, um dia, se encolerizasse contra nós?

Neio Lúcio

26 - LEI DO AMOR

__ “Rua!...Rua, infeliz que me ensombraste o nome!..." __

Clama o pai, a rugir para a filha que implora:

__ “Não me expulses, meu pai!...Temo a noite, lá fora!..."

E ele mostra o punhal na fúria que o consome.

Voa o tempo a rolar, sem que a vida o retome...

Ele, desencarnado, ansioso e triste agora,

Traz à filha exilada o coração que chora,

Espírito a sofrer, em sede, chaga e fome.

Ela sente-lhe a dor, através da lembrança,

E dá-lhe um corpo novo, ante a luz que o descansa

Nos fios da oração, em celeste rastilho!...

E, mais tarde, no lar que os apascente e acalma,

Ele diz: "Minha mãe, doce mãe de minhalma!..."

E ela diz a cantar: “Deus te abençoe, meu filho!..."

Narcisa Amália

27 - O GRITO DE CÓLERA

Lembra-se do instante em que gritou fortemente, antes do almoço?

Por insignificante questão de vestuário, você pronunciou palavras feias em voz alta,

desrespeitando a paz doméstica.

Ah! Meu filho, quantos males foram atraídos por seu gesto de cólera!...

A mamãe, muito aflita, correu para o interior, arrastando atenções de toda a casa. Voltou-lhe

a dor de cabeça e o coração tornou a descompassar-se.

As duas irmãs, que cuidavam da refeição, dirigiram-se precipitadamente para o quarto, a fim

de socorrê-la, e duas terças partes do almoço ficaram inutilizadas.

Em Razão das circunstâncias provocadas por sua irreflexão, o papai, muito contrariado, foi

compelido a esperar mais tempo em casa, chegando ao serviço com grande atraso.

Seu chefe não estava disposto a tolerar-lhe a falta e recebeu-o com repreensão áspera.

Quem o visse, erecto e digno, a sofrer essa pena, em virtude da sua leviandade, sentiria

compaixão, porque você não passa de um jovem necessitado de disciplina, e ele é um

homem de bem, idoso e correto, que já venceu muitas tempestades para amparar a família e

defendê-la. Humilhado, suportou as conseqüências de seu gesto impulsivo, por vários dias,

observado na oficina qual se fora um menino vadio e imprudente.

Os resultados de sua gritaria foram, porém, mais vastos.

A mãezinha piorou e o médico foi chamado.

Medicamentos de alto preço, trazidos à pressa, impuseram vertiginosa subida às despesas,

e o papai não conseguiu pagar todas as contas de armazém, farmácia e aluguel de casa.

Durante seis meses, toda a sua família lutou e solidarizou-se para recompor a harmonia

quebrada, desastradamente, por sua ira infantil.

Cento e oitenta dias de preocupações e trabalhos árduos, sacrifícios e lágrimas! Tudo porque

você, incapaz de compreender a cooperação alheia, se pôs a berrar, inconscientemente,

recusando a roupa que lhe não agradava.

Pense na lição, meu filho, e não repita a experiência.

Todos estamos unidos, reciprocamente, através de laços que procedem dos desígnios

divinos. Ninguém se reúne ao acaso. Forças superiores impelem-nos uns para os outros, de

modo a aprendermos a ciência da felicidade, no amor e no respeito mútuos.

O golpe do machado derruba a árvore de vez. A ventania destrói um ninho de momento para

o outro.

A ação impensada de um homem, todavia, é muito pior.

O grito de cólera é um raio mortífero, que penetra o círculo de pessoas em que foi

pronunciado e aí se demora, indefinidamente, provocando moléstias, dificuldades e

desgostos.

Por que não aprende a falar e a calar, a benefício de todos?

Ajude em vez de reclamar.

A cólera é força infernal que nos distancia da paz divina.

A própria guerra, que extermina milhões de criaturas, não é senão a ira venenosa de alguns

homens que se alastra, por muito tempo, ameaçando o mundo inteiro.

Néio Lúcio:

28 - PROFESSORES DIFERENTES

Entre familiares e amigos, encontras, na Terra, a oficina do teu burilamento.

Com raras exceções, todos apresentam problemas a resolver.

Problemas na emoção e no pensamento.

Problemas na palavra e na ação.

Problemas no lar e no trabalho.

Problemas no caminho e nas relações.

Prossegues, assim, junto deles, como quem respira ao pé de múltiplos instrutores num

instituto de ensino.

Muitos reclamam trabalho, lecionando-te paciência, enquanto outros te ferem a sensibilidade,

diplomando-te em sacrifício. Há os que te escandalizam incessantemente, adestrando-te em

piedade, e aqueles que te golpeiam a alma, com as lâminas invisíveis da ingratidão, para que

aprendas a perdoar.

E as lições vão surgindo, à maneira de testes inevitáveis.

Agora, é o esposo que deserta, dobrando-te a carga de obrigações, ou, noutras

circunstâncias, é a esposa que se rebela aos compromissos, agoniando-te as horas... Hoje,

ainda, são os pais que te contrariam as esperanças, os filhos que te aniquilam os sonhos ou

os amigos que se transformam em duros entraves no serviço a fazer.

Nenhum problema, entretanto, aparece ao acaso, e, por isso, é imperioso te armes de amor

para a, luta íntima.

Fugir da dificuldade é, muitas vezes, a idéia que te nasce como sendo o melhor remédio.

Semelhante atitude, porém, seria o mesmo que debandar, menosprezando as exigências da

educação.

Carrega, pois, com serenidade e valor o fardo de aflições que o pretérito te situa nos ombros,

convicto de que os associados complexos do destino são antigos parceiros de tuas

experiências, a repontarem do caminho, solicitando contas e acertos.

Seja qual for o ensinamento de que se façam interpretes, roga à Sabedoria Divina te inspire

a conduta, a fim de que não percas o merecimento da escola a que a vida te conduziu.

Ainda mesmo em lágrimas, lê, sem revolta, no livro do coração, as páginas de dor que te

imponham, ofertando-lhes por resposta as equações do amor puro, em forma de tolerância e

bondade, auxílio e compreensão.

Recorda que o próprio Cristo, sem débito algum, transitou, cada dia, na Terra, entre esses

professores diferentes do espírito. E, solucionando, na base da humildade, os problemas que

recebia na atitude e no comportamento de cada um, submeteu-se, a sós, à prova final da

suprema renúncia, à qual igualmente te submeterás, um dia, na conquista da própria

sublimação – o único meio de te elevares ao clima glorioso dos companheiros já redimidos

que te aguardam, vitoriosos, nas eminências da Espiritualidade.

Emmanuel

29 -COMPANHEIROS MUDOS

Com excelentes razões, mobilizas os talentos da palavra, a cada instante, permutando

impressões com os outros.

Selecionas os melhores conceitos para os ouvidos de assembléias atentas.

Aconselhas o bem, plasmando terminologia adequada para a exaltação da virtude.

Estudas Filologia e Gramática, no culto à linguagem nobre.

Encontras a frase exata, no momento certo, em que externas determinado ponto de vista.

Sabes manejar o apontamento edificante, em família.

Lecionas disciplinas diversas.

Debates problemas sociais.

Analisas os sucessos diários.

Questionas serviços públicos.

Indiscutivelmente, o verbo é luz da vida, de que o próprio Jesus se valeu para legar-nos o

Evangelho Renovador.

Entretanto, nesta nota simples, vimos rogar-te apoio e consolação para aqueles companheiros a

quem a nossa destreza não consegue servir em sentido direto.

Comparecem, às centenas, aqui e ali...

Jazem famintos e não comentam a carência de pão.

Amargam dolorosa nudez e não reclamam contra o frio.

Experimentam agoniadas depressões morais, sem pedirem qualquer reconforto à idéia religiosa.

Sofrem prolongados suplícios orgânicos, incapazes de recorrer voluntariamente ao amparo da

Medicina.

Pensa neles e, de coração enternecido, quanto puderes, oferece-lhes algo de teu amor, através

da peça de roupa ou da xícara de leite, da poção medicamentosa ou do minuto de atenção e

carinho, porque esses companheiros mudos e expectantes que nos rodeiam são as criancinhas

necessitadas e padecentes que não podem falar.

Emmanuel

30 - CARTA AOS PAIS

Não podes viver a esmo,

Numa estrada indefinida.

Um pai tem obrigações

Das mais nobres que há na vida.

Meu irmão, em tua casa,

Nas ternuras dos filhinhos,

Personifica o bom-senso,

Entre os beijos e os carinhos.

Por enquanto, a Terra inteira

Inda é um mar encapelado

Se não dominas a onda

Virás a ser dominado.

Entende a Luz do caminho.

A tua finalidade

Não é somente a da espécie

Nas lutas da Humanidade

Exige-se muito mais

Dos teus esforços no mundo;

Recebeste de Jesus

Um dom sagrado e profundo.

Se a missão das mães terrestres

É conduzir e ensinar,

O teu trabalho é de agir

No esforço de transformar.

Não olvides teus deveres

Na esfera da educação,

Fazendo de tua casa

A escola da redenção.

Um pai que deixa os filhinhos

Abandonados ao léu,

Não corresponde no mundo

A confiança do céu.

Cuida bem dos pequeninhos.

A educação tem segredos

Que devem ser estudados

Desde os tempos dos brinquedos.

A tua função no Lar

Não é somente prover,

Mas adotar providências,

Procurando esclarecer.

Ensina os teus a gastar.

Quem vive muito à vontade

Pode encontrar a miséria

No fim da ociosidade.

Gastar somente o que é justo

É ser prudente e cristão.

Quem gasta o que não é seu

Faz dívidas de aflição.

Luta sempre, mas se os teus

Não te seguirem os trilhos,

Esperemos nesse Pai

De que todos somos filhos.

Na pobreza ou na fortuna,

Esforça-te meu amigo.

Exemplifica o trabalho

E Deus estará contigo.

Casimiro Cunha

31 - UM DESASTRE

I

Duarte Nunes enriquecera. Duas grandes farmácias, muito bem dirigidas, eram para ele duas

galinhas de ovos de ouro. Dono do próprio tempo, não sabia usá-lo da maneira mais nobre e,

por isso, estimava nas grandes emoções suas grandes fugas.

Corridas de cavalos, corridas de automóveis, concursos de lanchas...

Entusiasta de todas os esportes. Gastador renitente.

Apesar disso, era bom esposo e bom pai. De vez em vez, levava os filhinhos, Marilene e

Murilo, às brigas de galos. O belo casal de garotos, porém, não gostava. Marilene voltava o

rosto para não ver, e Murilo, forte petiz de quatro anos, chorava desapontado.

– Poltrão! – dizia, o pai, com adocicada ironia. E colocava os dois no carro para longo

passeio. A esposa, muitas vezes presente, rogava aflita: “Nunes, mais devagar.” Ele, porém,

sorria, sarcástico, e dava largas ao freio. Sessenta, oitenta quilômetros...

Noutras circunstâncias, era Elmo Bruno, o amigo inseparável, que advertia, quando o carro

de luxo parecia comer o chão :

– Não corra assim. tanto... Olhe os pedestres!

– Que tenho eu lá com isso?

E Bruno explicava :

– Há pessoas distraídas, e crianças inconscientes. Nem sempre conseguem, de pronto, ver

os sinais...

Duarte encerrava o capítulo, acrescentando :

– Rodas foram feitas para rodar. E depressa.

De outras vezes, era o próprio pai dele a aconselhá-lo, enquanto o veículo parecia voar :

– Meu filho, é preciso prudência... O volante pede calma... Penso que, além dos quarenta

quilômetros, tudo é caminho para desastre...

– Frioleiras, papai – respondia Nunes, bem humorado, agravando o problema.

Sempre que exortado, corria mais.

II

– Meninos de apartamento, aves engaioladas!

– dizia a mamãe Duarte Nunes, abraçando os netos.

– Então – disse a pai, sorrindo –, preferem vovó?

– Sim, sim...

Decorridos minutos, saem todos na manhã domingueira.

Dona Branca desce com a nora, amparando as crianças, ao pé da própria casa a pleno sol

de Ipanema e declara :

– Nossos pássaros prisioneiros querem hoje a largueza da praia. Vamos respirar... – Riram -

se todos.

E o auto, conduzindo Nunca e Elmo, saiu em disparada.

Mais tarde, Petrópolis.

Amigos improvisavam corridas de bicicletas.

Bandeirinhas. Anotações. Relógios era massa. Homens magros, pedalando, ansiosos e, por

fim, o aguapé em hotel serrano, sob árvore" farfalhudas.

Ao virar da tarde, o regresso.

Todo o Rio inda vibra de sol.

– Porque não buscar, primeiro, a cerveja pura e gelada, em Copacabana? – perguntou

Nunes, contente.

O carro devora o asfalto.

– Devagar, devagar... – pede o amigo.

Depois da cerveja, o retorno a casa. Nunes inicia a marcha, como quem decola.

– Devagar, devagar – roga o companheiro.

Ele ri. Desatende. A poucos minutos, ambos vêem um pequeno em maiô. Está só. Agita-se.

E corre de través procurando o outro lado. Nunes tenta frear, mas é tarde. Atropela o garoto

que tomba qual pluma ao vento.

Populares gritando. O menino estendido na rua é um pássaro que agoniza.

Sangue. Muito sangue. Nunes aflige-se.Elmo volta e vê. Ergue a criança, espantado, e

caminha no rumo dele.

– Seja quem for – grita Nunes –, leve à nossa farmácia... Toda a despesa gratuita...

Todavia, o amigo, boquiaberto, apresenta-lhe a menino morto e exclama :

– Munes, este menino é...

– É quem? Diga logo – falou Mune, impaciente.

Mas não precisou de maiores minúcias, porque Bruno, traumatizado, disse-lhe apenas :

– É seu filho...

Irmão X

32 - SOLUÇÃO NATURAL

Os espíritos benfeitores já não sabiam como atender à pobre senhora obsidiada

Perseguidor e perseguida estavam mentalmente associados à maneira de polpa e casca no

futuro.

Os amigos desencarnados tentaram afastar o obsessor, induzindo a jovem senhora a

esquecê-lo, mas debalde.

Se; tropeçava na rua, a moça pensava nele...

Se; alfinetava um dedo em serviço, atribuía-lhe o golpe...

Se o marido estivesse irritado, dizia vítima do verdugo invisível...

Se; a cabeça doía, acusava-o...

Se; uma xícara se espatifasse no trabalho doméstico, imaginava-se atacada por ele...

Se aparecesse leve dificuldade econômica, transformava a prece em crítica ao

desencarnado infeliz...

Reconhecendo que a interessada não encontrava libertação por teimosia, os instrutores

espirituais, ligaram os dois – a doente e o acompanhante invisível – em laços fluídicos mais

profundos, até que ele renasceu dela mesma, por filho necessitado de carinho e de

compaixão.

Os benfeitores descansaram.

O obsessor descansou.

A obsidiada descansou.

O esposo dela descansou.

Transformar obsessores em filhos, com a bênção da Providência Divina, para me haja paz

nos corações e equilíbrio nos lares, muita vez, é a única solução.

Hilário Silva

33 – A INFÂNCIA

Quando o berço é relegado ao abandono, o lar desce ao nível do inferno.

André Luiz

***

Na doce ternura em flor

De um pequenino a sorrir,

A Vida te pede amor

Na construção do porvir.

João de Deus

***

Auxilia a infância torturada. A miséria e o sofrimento começam no berço desprotegido.

Batuíra.

***

Ajuda a criança pobre,

Por armas ao teu filhinho.

O berço desamparado

É treva para o caminho

Casimiro Cunha

***

Não menosprezes a tua oportunidade de estender mãos amigas aos filhinhos do infortúnio.

Recorda que Jesus, o Enviado Divino, foi saudado por uma estrela nas palhas da

Manjedoura.

Emmanuel

34 - RESPOSTA DO ALÉM

Minha irmã: valho-me do "correio do outro mundo" para responder à sua carta, cheia da

sensibilidade do seu coração de mulher.

Pede-me a senhora o concurso de Espírito desencarnado para a solução de problemas

domésticos no setor de educação aos filhinhos que Deus lhe confiou. Conforma-me,

sobremaneira, a sua generosidade; entretanto, minha amiga, a opinião dos mortos,

esclarecidos na realidade que lhes constitui o novo ambiente, será sempre muito diversa do

conceito geral.

A verdade que o túmulo nos fornece renova quase todos os preceitos que nos pautavam as

atitudes.

Aí no mundo, entrajados no velho manto das fantasias, raros pais conseguem fugir à

cegueira do sangue. De orientadores positivos, que deveríamos ser, passamos à condição

de servidores menos dignos dos filhos que a providência nos entrega, por algum tempo, ao

carinho e ao cuidado.

Na Europa, trabalhada pelo sofrimento, existem coletividades que já se acautelam contra os

perigos da inconsciência na educação infantil entre mimos e caprichos satisfeitos.

Conhecemos, por exemplo, um rifão inglês que recomenda: - "poupa a vara e entrega a

criança". Mas, na América, geralmente, poupamos os defeitos da criança para que o jovem

nos deite a vara logo que possa vestir-se sem nós. Naturalmente que os britânicos não são

pais desnaturados, nem monstros que atormentem os meninos na calada da noite, mas

compreenderam, antes de nós, que o amor, para educar, não prescinde da energia e que a

ternura, por mais valiosa, não pode dispensar o esclarecimento.

Dentro do Novo Mundo, e principalmente em nos País, as crianças são pequeninos e

detestáveis senhores do lar que, aos poucos, se transformam em perigosos verdugos.

Enchemo-las de brinquedos inúteis e de carinhos prejudiciais, sem a vigilância necessária,

diante do futuro incerto. Lembro-me, admirado, do tempo em que se considerava herói o

genitor que roubasse um guizo para satisfazer a impertinência de algum pequerrucho

traquinas e, muitas vezes, recordo, envergonhado, a veneração sincera com que via certas

mães insensatas a se debulharem em pranto pela impossibilidade de adquirir uma grande

boneca para a filhinha exigente. A morte, todavia, ensinou-me que tudo isso não passa de

loucura do coração.

É necessário despertar a alegria e acender a luz da felicidade em torno das almas que

recomeçam a luta humana, em corpos tenros e, muita vez, enfermiços. Fora tirania

doméstica subtraí-las ao sol, ao jardim, à Natureza. Seria crime cerrar-lhes o sorriso

gracioso, com os ralhos inoportunos, quando os seus olhos ingênuos e confiantes nos

pedem compreensão. Entretanto, minha amiga, não cogitamos de proporcionar-lhes a alegria

construtiva, nem nos preocupamos com a sua felicidade real. Viciamo-lhas simplesmente.

Começamos a tarefa ingrata, habituando-lhes a boca às piores palavras da gíria e

incentivando-lhes as mãos pequenas à agressividade risonha. Horrorizamo-nos quando

alguém nos fala em corrigenda e trabalho. A palmatória e a oficina destinam-se aos filhos

alheios. Convertemos o lar, santuário edificante que a Majestade Divina nos confia na Terra,

em fortaleza odiosa, dentro da qual ensinamos o menosprezo aos vizinhos e a guerra

sistemática aos semelhantes. Satisfazendo-lhes os caprichos, dispomo-nos a esmagar

afeições sublimes, ferindo nossos melhores amigos e descendo aos fundos abismos do

ridículo e da estupidez. Fiéis às suas descabidas exigências, falhamos em setenta por cento

de nossas oportunidades de realização espiritual na existência terrestre. Envelhecemo-nos

prematuramente, contraímos dolorosas enfermidades da alma e, quase sempre, só

reconhecem alguma coisa de nossa renúncia vazia, ;quando o matrimônio e a família direta

os defrontam, no extenso caminho da vida, dilatando-lhes obrigações e trabalhos. Ainda aí,

se a piedade não comparece no quadro de suas concepções renovadas, convertem-nos em

avós escravos e submissos.

A morte, porém, colhe nossa alma em sua rede infalível para que nos aconselhemos, de

novo, com a verdade. Cai-nos a venda dos olhos e observamos que os nossos supostos

sacrifícios não representavam senão amargoso engano da personalidade egoística. Nossas

longas vigílias e atritos angustiosos eram, apenas, a defesa improfícua de mentiroso sistema

de proteção familiar. E humilhados, vencidos tentamos debalde o exercício tardio da

correção. Absolutamente desamparados de nossa lealdade e de nossa indesejável ternura,

os filhos do nosso amor rolam, vida afora, aprendendo na aspereza do caminho comum. É

que, antes de serem os rebentos temporários de nosso sangue, eram companheiros

espirituais do campo a vida infinita, e, se voltaram ao internato da reencarnação, é que

necessitavam atender ao resgate, junto de nós outros, adquirindo mais luz no entendimento.

Não devíamos cercá-los de mimos inúteis, mas de lições proveitosas, preparando-os, em

face das exigências da evolução e do aprimoramento para a vida eterna.

Desse modo, minha amiga, use os seus recursos educativos compatíveis com o

temperamento de cada bebê, encaminhando-lhes o passo, desde cedo, na estrada do

trabalho e dobem, da verdade e da compreensão, porque as escolas públicas ou particulares

instruem a inteligência, mas não se podem responsabilizar pela edificação do sentimento.

Em cada cidade do mundo pode haver um Pestalozzi que coopere na formação do caráter

infantil, mas ninguém pode substituir os pais na esfera educativa do coração.

Se a senhora, porém, não acreditar em minhas palavras, por serem filhas da realidade

indisfarçável e dura, exercite exclusivamente o carinho e espere pela lição do futuro, sem

incomodar-se com os meus conselhos, porque eu também, se ainda estivesse envolvido na

carne terrestre e se um amigo do "outro mundo" me viesse trazer os avisos que lhe dou,

provavelmente não os aceitaria.

Irmão X

35 - CARTA A MEU FILHO

Meu filho, dito esta carta para que você saiba que estou vivo.

Quando você me estendeu a taça envenenada que me liquidou a existência, não pensávamos

nisso.

Nem você, nem eu.

A idéia da morte vagueava longe de mim, porque esperava de suas mãos apenas o remédio

anestesiante para a minha enxaqueca.

Entendi tudo, porém, quando você, transtornado, cerrou subitamente a porta e exclamou com

frieza:

-Morre, velho!

As convulsões que me tomavam de improviso, traumatizavam-me a cabeça...

Era como se afiada navalha me cortasse as vísceras num braseiro de dor. Pude ainda, no

entanto, reunir minhas forças em suprema ansiedade e contemplar você, diante de meus olhos.

Suas palavras ressoavam-me aos ouvidos: __ “morre, velho!”

Era tudo o que você, alterado e irreconhecível, tinha agora a dizer.

Entretanto, o amor em minh’alma era o mesmo.

Tornei à noite recuada quando o afaguei pela primeira vez.

Sua mãezinha dormia, extenuada...

Pequenino e tenro de encontro ao meu peito, senti em você meu próprio coração a vagir nos

braços...

E as recordações desfilaram, sucessivas.

Você, qual passarinho contente a abrigar-se em meu colo, o álbum de fotografias em que sua

imagem apresentava desenvolvimento gradativo em todas as posições, as festas de aniversário

e os bolos coloridos enfeitados de velas que seus lábios miúdos apagavam sempre numa

explosão de alegria... Rememorei nossa velha casa, a princípio humilde e pobre, que o meu suor

convertera em larga habitação, rica e farta... Agoniado, recordei incidentes, desde muito

esquecidos, nos quais me observava expulsando crianças ternas e maltrapilhas do grande jardim

de inverno para que nosso lar fosse apenas seu... Reencontrei-me, trabalhando, qual suarento

animal, para que as facilidades do mundo nos atendessem as ilusões e os caprichos...

Em todos os quadros a se me reavivarem na lembrança, era você o grande soberano de nosso

pequeno mundo...

O passado continuou a desdobrar-se, dentro de mim. Revisei nossa luta para que os livros lhe

modificassem a mente, o baldado esforço para que a mocidade se lhe erigisse em alicerce nobre

ao futuro... De volta às antigas preocupações que me assaltavam, anotei-lhe, de novo, as

extravagâncias contínuas, os aperitivos, os bailes, os prazeres, as companhias

desaconselháveis, a rebeldia constante e o carro de luxo com que o presenteei num momento

infeliz...

Filho do meu coração, tudo isso revi...

Dera-lhe todo o dinheiro que conseguira ajuntar, mas você desejava o resto.

Nas vascas da morte, vi-o, ainda, mãos ansiosas, arrebatando-me o chaveiro para surripiar as

últimas jóias de sua mãe...Vi perfeitamente quando você empalmou o dinheiro, que se mantinha

fora de nossa conta bancária, e, porque não podia odiá-lo, orei – talvez com fervor e sinceridade

pela primeira vez – rogando a Deus nos abençoasse e compreendendo, tardiamente, que a

verdadeira felicidade de nossos filhos reside, antes de tudo, no trabalho e na educação com que

lhes venhamos a honrar a vida.

Não dito esta carta para acusá-lo.

Nem de leve me passou pelo pensamento o propósito de anunciar-lhe o nome.

Você continua sangue de meu sangue, coração de meu coração.

Muitas vezes, ouvi dizer que há filhos criminosos, mas entendo hoje que, na maioria das

circunstâncias, há, junto deles, pais delinqüentes por acreditarem muito mais na força do cofre

que na riqueza do espírito, afogando-os, desde cedo, na sombra da preguiça e no vício da

ingratidão.

Não venho falar, assim, unicamente a você, porque seu erro é o meu erro igualmente. Falo

também a outros pais, companheiros meus de esperança, para que se precatem contra o

demônio do ouro desnecessário, porque todo ouro desnecessário, quando não busca o conselho

da caridade, é tentação à loucura.

Há quem diga que somente as mães sabem amar e, realmente, o regaço materno é uma bênção

do paraíso. Entretanto, meu filho, os pais também amam e, por amar imensamente a você, dirijolhe

a presente mensagem, afirmando-lhe estar em prece para que a nossa falta encontre socorro

e tolerância nos tribunais da Divina Justiça, aos quais rogo me concedam, algum dia, a felicidade

de tê-lo novamente ao meu lado, por retrato vivo de meu carinho... Então nós dois juntos, de

passo acertado no trabalho e no bem, aprenderemos, enfim, como servir ao mundo, servindo a

Deus.

J.

36 - PEQUENINOS

No mundo, resguardamos zelosamente livros e pergaminhos, empilhando compêndios e

documentações, em largas bibliotecas, que são cofres fortes do pensamento.

Preservamos tesouros artísticos de outras eras, em museus que se fazem riquezas de

avaliação inapreciável.

Perfeitamente compreensível que assim seja.

A educação não prescinde da consulta ao passado.

***

Acautelamos a existência de rebanhos e plantações contra flagelos supervenientes,

despendendo milhões para sustar ou diminuir a força destrutiva das inundações e das secas.

Mobilizamos verbas astronômicas, no erguimento de recursos patrimoniais devidos ao

conforto da coletividade, tanto no sustento e defesa das instituições, quanto no equilíbrio e

aprimoramento das relações humanas.

Claramente normal que isso aconteça.

É indispensável prover as exigências do presente com todos os elementos necessários à

respeitabilidade da vida.

***

Urge, entretanto, assegurar o porvir, a esboçar-se impreciso, no mundo ingênuo da infância.

Abandonar pequeninos ao léu, na civilização magnificente da atualidade, é o mesmo que

levantar soberbo palácio, farto de viandas, abarrotado de excessos e faiscante de luzes,

relegando o futuro dono ao relaxamento e ao desespero, fora das portas.

A criança de agora erigir-se-nos-á fatalmente em biografia e retrato depois.

Além de tudo, é preciso observar que, segundo os princípios da reencarnação, os meninos

de hoje desempenharão, amanhã, junto de nós, a função de pais e conselheiros,

orientadores e chefes.

Não nos cansemos, pois, de repetir que todos os bens e todos os males que depositarmos

no espírito da criança ser-nos-ão devolvidos.

Emmanuel

37 - VERSOS A MINHA MÃE

Pássaro preso no recinto escasso

Do velho canavial, beirando o rio,

Quis ver o mundo vasto e conheci-o,

Varando, em pleno vôo, o azul do espaço...

Lembro-me agora... Enceguecido, abraço

A exaltação, a glória e o poderio...

Mas tudo, mi a mãe, era vazio

Fora do amor que brilha e teu regaço.

Vi mil chagas de dor que a fama incerta

Nos nervos de ouro da cidade imensa,

E prazeres, era trágico desmando...

Mas no colo a que, em sonho, me recostas,

Tenho apenas teu vulto de mãos postas,

Que teu filho recorda, soluçando...

Da Costa E Silva.

38 - CONFIDÊNCIA DE MÃE

Dei-te um berço de rendas e de flores,

Adorei-te por nume excelso e amigo

E inclinei-te, meu filho, a ser comigo

Soberano de sonhos tentadores.

Ordenava no orgulho que maldigo :

– “Não te curves nem sirvas, aonde fores...”

Entreguei-te mentiras por louvores

E enganosa fortuna por abrigo.

Hoje, de alma surpresa, torno a casa!

Tremo ao ver-te no luxo que te arrasa,

Como quem do e em trágico veneno!

E choro, filho meu, choro vencida,

Por guardar-te entre os grandes toda a vida,

Sem jamais ensinar-te a ser pequeno.

Andradina de Oliveira

39 - HISTÓRIA DE UM PÃO

Quando Barsabás, o tirano, demandou o reino da morte, buscou debalde reintegrar-se no

grande palácio que lhe servira de residência.

A viúva, alegando infinita mágoa, desfizera-se da moradia, vendendo-lhe os adornos.

Viu ele, então, baixelas e candelabros, telas e jarrões, tapetes e perfumes, jóias e relíquias,

sob o martelo do leiloeiro, enquanto os filhos querelavam no tribunal, disputando a melhor

parte da herança.

Ninguém lhe lembrava o nome, desde que não fosse para reclamar o ouro e a prata que

doara a mordomos distintos.

E porque na memória de semelhantes amigos ele não passava, agora, de sombra, tentou o

interesse afetivo de companheiros outros da infância...

Todavia, entre eles encontrou simplesmente a recordação dos próprios atos de malquerença

e de usura.

Barsabás, entregou-se as lágrimas de tal modo, que a sombra lhe embargou, por fim, a

visão, arrojando-o nas trevas.

Vagueou por muito tempo no nevoeiro, entre vozes acusadoras, até que um dia aprendeu a

pedir na oração, e, como se a rogativa lhe servisse de bússola, embora caminhasse às

escuras, eis que, de súbito, se lhe extingue a cegueira e ele vê, diante de seus passos, um

santuário sublime, faiscante de luzes.

Milhões de estrelas e pétalas fulgurantes povoavam-no em todas as direções.

Barsabás, sem perceber, alcançara a Casa das Preces de Louvor, nas faixas inferiores do

firmamento.

Não obstante deslumbrado, chorou, impulsivo, ante o Ministro espiritual que velava no

pórtico.

Após ouvi-lo, generoso, o funcionário angélico falou sereno:

- Barsabás, cada fragmento luminoso que contemplas é uma prece de gratidão que subiu da

Terra ...

- Ai de mim - soluçou o desventurado - eu jamais fiz o bem...

- Em verdade - prosseguiu a informante -, trazes contigo, em grandes sinais, a pranto e a

sangue dos doentes e das viúvas, dos velhinhos e órfãos indefesos que despojaste, nos teus

dias de invigilância e de crueldade; entretanto, tens aqui, em teu crédito, uma oração de

louvor...

E apontou-lhe acanhada estrela, que brilhava a feição de pequenino disco solar.

- Há trinta e dois anos - disse, ainda, o instrutor -, deste um pão a uma criança e essa criança

te agradeceu, em prece ao Senhor da Vida.

Chorando de alegria e consultando velhas lembranças, Barsabás perguntou:

- Jonakim, o enjeitado?

- Sim, ele mesmo - confirmou a missionário divino. - Segue a claridade do pão que deste, um

dia, por amor, e livrar-te-ás, em definitivo, do sofrimento nas trevas.

E Barsabás acompanhou a tênue raio do tênue fulgor que se desprendia daquela gota

estelar, mas, em vez de elevar-se as Alturas, encontrou-se numa carpintaria humilde da

própria Terra.

Um homem calejado aí refletia, manobrando a enxó em pesado lenho...

Era Jonakim, aos quarenta de idade.

Como se estivessem as dois identificados no doce fio de luz, Barsabás abraçou-se a ele,

qual viajante abatido, de volta ao calor do lar... (...)

Decorrido um ano, Jonakim, a carpinteiro, ostentava, sorridente, nos braços, mais um

filhinho, cujos louros cabelos emolduravam belos olhos azuis.

Com a benção de um pão dado a um menino triste, por espírito de amor puro, conquistara

Barsabás, nas Leis Eternas, o prêmio de renascer para redimir-se.

Irmão X

40 - ESSAS OUTRAS CRIANÇAS

Quando abraças teu filho, no conforto doméstico, fica essas outras crianças que jornadeiam

sem lar.

***

Dispões de alimento abundante para que teu filho se mantenha em linha de robustez.

Essas outras crianças, porem, caminham desnorteadas, aguardando os restos da mesa que

lhes atira, com displicência, findo o repasto.

***

Escolhes a roupa nobre e limpa de que teu filho se vestirá, conforme a estação.

Todavia, essas outras crianças tremem de frio, recobertas de andrajos.

***

Defendes teu filho contra a intempérie, sob o teto acolhedor, sustentando-o à feição de jóia

no escrínio.

Contudo, essas outras crianças cochilam estremunhadas na via pública quando não se

distendem no espaço asfixiante do esgoto.

***

Abres ao olhar deslumbrados de teu filho, os tesouros da escola.

E essas outras crianças suspiram debalde pela luz do alfabeto, acabando, muita vez,

encerradas no cubículo das prisões, à face da ignorância que lhes cega a existência.

***

Conduzes teu filho a exame de pediatras distintos sempre que entremostre leve dor de

cabeça.

Entretanto, essas outras crianças mimadas por moléstias atrozes, agonizam em leitos de

pedra, sem que mão amiga as socorra.

***

Ofereces aos sentidos de teu filho, a festa permanente das sugestões felizes, através da

educação incessante.

No entanto, essas outras crianças guardam olhos e ouvidos quase sintonizados no lodo

abismal das trevas.

***

Afaga, assim, teu filho no trono familiar, mas desce ao pátio da provação, onde essas outras

crianças se agitam em sombra ou desespero e ajuda-as quanto possas!

***

Quem serve no amor de Cristo, sabe que a boa palavra e o gesto de carinho, o pedaço de

pão e a peça de vestuário, o frasco de remédio e a xícara de leite operam maravilhas.

***

Proclamas a cada passo que esperas confiante o esplendor do futuro mas, enquanto essas

outras crianças chorarem desamparadas, clamaremos em vão pelo mundo melhor.

Emmanuel

41 - ÁLBUM MATERNO

... E nós respigamos alguns tópicos do álbum repleto de fotos, que descansava na

penteadeira de Dona Silvéria Lima, ao lermos enternecidamente a história do filho, que ela

própria escrevera.

1941 – Outubro, 16 – Meu filho nasceu, no dia 12. Sinto-me outra. Que alegria! Como

explicar o mistério da maternidade? Meu Deus, meu Deus!... Estou transformada, jubilosa!...

Outubro, 18 – Meu filho recebeu o nome de Maurício. Aos seis dias de nascido, parece um

tesouro do Céu em meus braços!...

Outubro, 20 – Recomendei o Jorge trazer hoje um berço de vime, delicado e maior. O

menino é belo demais para dormir no leito de madeira que lhe arranjamos. Coisa estranha!...

Jorge, desde que se casou comigo, nada reclamou... Agora, admite que exagero. Considerou

que devemos pensar nas crianças menos felizes. Apontou casos de meninos que dormem no

esgoto, mas, que temos nós com meninos de esgoto? Caridade!... Caridade é cada um

assumir o desempenho das próprias obrigações. Meu marido está ficando sovina. Isso é o

que é...

1942 – Novembro, ll – Mauricinho adoeceu. Sinto-me enlouquecer... Já recorri a seis

médicos.

1943 – Dezembro, 15 – O pediatra aconselhou-me deixar a amamentação e mandou que

Mauricinho largue a chupeta. Repetiu instruções, anunciou, solene, que a educação da

criança deve começar tão cedo quanto possível. Essa é boa! Eu sou mãe de Mauricinho e

Mauricinho é meu filho. Que tem o médico de se intrometer? amamento meu filho e dou-lhe a

chupeta, enquanto ele a quiser.

1944 – Março, 13 – Mauricinho, intranqüilo, arranhou, de leve, o rosto da ama com as unhas.

Brincadeira de criança, bobagem. Jorge, porém, agastou-se comigo por não repreendê-la.

Tentou explicar-me a reencarnação. Assegurou que a criança é um Espírito que já viveu em

outras existências, quase sempre tomando novo corpo para se redimir de culpas anteriores,

e repisou que os pais são responsáveis pela orientação dos filhos, diante de Deus, porque os

filhos (palavras do coitado do Jorge) são companheiros de vidas passadas que regressam

até nós, aguardando corrigenda e renovação... Deu-me vontade de rir na cara dele. Antes do

casamento, Jorge já andava enrolado com espíritas... Reencarnação!... Quem acredita

nisso? Balela... Chega um momento de nervosismo, a criança chora, e será justo espancá-la,

simplesmente por essa razão?

1946 – Março, 15 – Jorge admoestou-me com austeridade. Parecia meu avô, querendo

puxar-me as orelhas. Declarou que não estou agindo bem. Acusou-me. Tratou-me como se

eu fosse irresponsável. Tem-se a impressão de que é inimigo do próprio filho. Queixou-se de

mim, alegou que estou deixando Maurício crescer como um pequeno monstro (que palavra

horrível!), tão só porque o menino, ontem, despejou querosene no cão do vizinho e ateou

fogo... Era um cachorro intratável e imundo. Certamente que não estou satisfeita por haver

Maurício procedido assim, mas sou mãe... Meu filho é um anjo e não fez isso

conscientemente. Talvez julgasse que o fogo conseguisse acabar com a sujeira do cão.

1948 – Abril,9 – Crises de Maurício. Quebrou vidraças e pratos, esperneou na birra e atirou

um copo de vidro nos olhos da cozinheira, que ficou levemente machucada, seguindo para o

hospital... Jorge queria castigar o menino. Não deixei. Discutimos. Chorei muito. Estou muito

infeliz.

1950 – Setembro, 5 – A professora de Maurício veio lastimar-se. Moça neurastênica.

Inventou faltas e mais faltas para incriminar o pobre garoto. Informou que não pode mantê-lo,

por mais tempo, junto dos alunos. Mulher atrevida! Pintou meu filho como se fosse o diabo.

Ensinei a ela que a porta da rua é serventia da casa. Deixa estar! Ela também será mãe...

Que bata nos filhos dela!...

1952 – Maio, 16 – Maurício já foi expulso de três colégios. Perseguido pela má sorte o meu

inocentinho!... Jorge afirma-se cansado, desiludido... Já falou até mesmo num internato de

correrão. Meu Deus, será que meu filho somente encontre amor e refúgio comigo? Tão

meigo, tão bom!... Prefiro desquitar-me a permitir que Jorge execute qualquer idéia de

punição que, aliás, não consigo compreender... Meu filho será um homem sem complexos,

independente, sem restrições... Quero Maurício feliz, feliz!...

1%6 – Meu marido quer empregar nosso filho numa casa de móveis. Loucura!... Acredita que

Mauricinho precisa trabalhar sob disciplina. Que plano!... Meu filho com patrão... Era o que

faltava!... Temos o suficiente para garantir-lhe sossego e liberdade.

1957 – Janeiro, 14 – Jorge está doente. O médico pediu para que lhe evitemos dissabores

ou choques. Participou-me, discreto, que meu marido tem o coração fatigado, hipertensão.

Desde o ano passado, Jorge tem estado triste, acabrunhado com as calúnias que começam

a aparecer contra o nosso filhinho. Amigos-ursos fantasiaram que Maurício, em vez de

freqüentar o colégio, vive nas ruas, com vagabundos. Chegaram ao desplante de asseverar

que meu filho foi visto furtando e, ainda mais... Falaram que ele usa maconha em casas

suspeitas. Pobre filho meu!... Sendo filho único, Maurício necessita de ambiente para

estudar, e se vem, alta madrugada, para dormir, é porque precisa do auxilio dos colegas, nas

várias residências em que se reúnem com os livros.

1958 – Outubro, 6 – Jorge ficou irado, porque exigi dele a compra de um carro para Maurício,

como presente de aniversário. Brigou, xingou, mas cedeu...

1959 – Junho, 15 – Estou desesperada. Jorge foi sepultado ontem. Morreu apaixonado,

diante da violência da delegado policial que intimou Mauricinho a provar que não estava

vendendo maconha. Amanhã, enviarei um advogado ao Distrito. Se preciso, processarei o

chefe truculento... Ninguém arruinará o nome de meu filho, que é um santo... Oh! meu Deus,

como sofrem as mães!...

1960 – Agosto, 2 – Duas mulheres me procuraram, com a intenção de arrancar-me dinheiro.

Disseram que meu filho lhes arrepiou jóias. Velhacas e mandrionas. Maurício jamais desceria

a semelhante baixeza. Dou-lhe mesada farta. Expulsei as chantagistas e, se voltarem,

conhecerão as necessárias providências.

1961 – Fevereiro, 22 – Nunca pensei que o nosso velho amigo Noel chegasse a isso!...

Culpar meu filho! Sempre a mesma arenga... Maurício na maconha. Maurício no furto! Agora

é um dos mais antigos companheiros de meu esposo que vem denunciar meu filho como

incurso num suposto crime de estelionato, comunicando-me, numa farsa bem tramada, que

Maurício lhe falsificou a letra num cheque, roubando-lhe trezentos contos... Tudo

perseguição e mentira. Já ouvi dizer que Noel anda caduco. Usurário caminhando para o

hospício. Essa é que é a verdade... Sou mãe!... Não permitirei que meu filho sofra; nunca

admiti que alguém levantasse a voz contra ele... Maurício nasceu livre, é livre, faz o que

entende e não é escravo de ninguém. Estou revoltada, revoltada!...

Nesse ponto, terminavam as confidências de Dona Silvéria, cujo corpo estava ali, inerte e

ensangüentado, diante de nós, os amigos desencarnados, que fôramos chamados a prestarlhe

assistência. Acabara de ser assassinada pelo próprio filho, obsidiado e sequioso de

herança.

Enquanto selecionávamos as últimas notas do álbum singular, Maurício, em saleta contígua,

telefonava para a Polícia, depois de haver armada habilmente a tese do suicídio.

Irmão X

42 - CRISTO EM CASA

Se desejas extinguir

A sombra que aflige e atrasa,

Não olvides acender

A luz do Evangelho em casa.

Quando possível, nas horas

De doce união no lar,

Estende a Lição Divina

Ao grupo familiar.

Na chama viva da prece,

O culto nobre inicia,

Rogando discernimento

À Eterna Sabedoria.

Logo após, lê, meditando

O Texto Renovador

Da Boa Nova sublime,

Que é fonte de todo o amor.

Verás a tranqüilidade,

Vestida em suave brilho,

Irradiando esperança

Em todo o teu domicílio.

Ante a palavra do Mestre,

Generosa, clara e boa,

A experiência na Terra

É luta que aperfeiçoa.

Mentiras da vaidade,

Velhos crimes da avidez,

Calúnia e maledicência

Desaparecem de vez...

Serpentes envenenadas

Do orgulho torvo e escarninho,

Sob o clarão da verdade,

Esquecem-nos o caminho.

Dificuldades e provas,

Na dor amargosa e lenta,

São recursos salvadores

Com que o Céu nos apascenta.

E o trabalho por mais rude,

No campo de cada dia,

É dádiva edificante

Do bem que nos alivia.

É que, na Bênção do Cristo,

Clareia-se-nos a estrada

E a nossa vida ressurge,

Luminosa e transformada.

Conduze, pois, tua casa

À inspiração de Jesus.

O Evangelho em tua mesa

É pão da Divina Luz.

Casimiro Cunha

43 - A MULHER ANTE O CRISTO

Toda vez que nos dispomos a considerar a mulher em plano inferior, lembremo-nos dela, ao

tempo de Jesus.

Há vinte séculos, com exceção das patrícias do Império, quase todas as companheiras do povo,

na maioria das circunstâncias, sofriam extrema abjeção, convertidas em alimárias de carga,

quando não fossem vendidas em hasta pública.

Tocadas, porém, pelo verbo renovador do Divino Mestre, ninguém respondeu com tanta lealdade

e veemência aos apelos celestiais.

Entre as que haviam descido aos vales da perturbação e da sombra, encontramos em Madalena

o mais alto testemunho de soerguimento moral, das trevas para a luz; e entre as que se

mantinham no monte do equilíbrio doméstico, surpreendemos em Joana de Cusa o mais nobre

expoente de concurso e fidelidade.

Atraídas pelo amor puro, conduziam à presença do Senhor os aflitos e os mutilados, os doentes

e as crianças. E embora não lhe entregassem o círculo apostólico, foram elas – as representadas

nas filhas anônimas de Jerusalém - as únicas demonstrações de solidariedade espontânea que o

visitaram, desassombradamente, sob a cruz do martírio, quando os próprios discípulos

debandavam.

Mais tarde, junto aos continuadores, da Boa Nova, sustentavam-se no mesmo nível de elevação

e entendimento.

Dorcas, a costureira Jopense, depois de amparada por Simão Pedro, fez-se mais ativa

colaboradora da assistência aos infortunados. Febe é a mensageira da epístola de Paulo de

Tarso aos romanos. Lídia, em Filipos, é a primeira mulher com suficiente coragem para

transformar a própria casa em santuário do Evangelho nascituro. Lóide e Eunice, parentas de

Timóteo, eram padrões morais da fé viva.

Entretanto, ainda que semelhantes heroínas não tivessem de fato existido, não podemos olvidar

que, um dia, buscando alguém no mundo para exercer a necessária tutela sobre a vida preciosa

do embaixador divino, o supremo poder do universo não hesitou em recorrer à abnegada mulher,

escondida num lar apagado e simples...

Humilde, ocultava a experiência dos sábios; frágil como o lírio, trazia consigo a resistência do

diamante; pobre entre os pobres, carreava na própria virtude os tesouros incorruptíveis do

coração, e, desvalida entre os homens, era grande e prestigiosa perante Deus.

Eis o motivo pelo qual, sempre que o raciocínio nos induza a ponderar quanto à glória do Cristo -

recordando, na terra, a grandeza de nossas próprias mães - nós nos inclinaremos, reconhecidos

e reverentes, ante a luz imarcescível da Estrela de Nazaré.

Emmanuel

44 - SAUDADE VAZIA

Desde muito chorava o belo filho morto,

Num desastre de mar em suntuoso falucho...

Triste, a fidalga anciã vivia em pranto e luxo,

No esplêndido solar ao pé de velho porto...

Certo dia, a criada, em rijo desconforto,

Dá-lhe um pobre enjeitado, um magro pequerrucho.

Ela clama: “Não quero! Isto é morcego e bruxo,

Tem na face de monstro o nariz feio e torto!...”

E a dama solitária, em angústia insofrida,

Atravessou a morte e acordou noutra vida,

Buscando, ansiosa e rude, a afeição do passado...

Debalde soluçou, na lição do destino...

Ao desprezar na Terra o infeliz pequenino,

Recusara, orgulhosa, o filho reencarnado.

Jorge Faleiros

45 - SURPRESA

– Se alguém de outra vida pudesse materializar-se aos meus olhos – dizia Germano Pereira,

em plena sessão no próprio lar –, Decerto que a minha fé seria maior... Um ser de outro

planeta que me obrigasse a pensar... Tanta gente se reporta a visões dessa natureza!

Entretanto, semelhantes aparições não passam do cérebro doentio que as imagina. Quero

algo de evidente e palpável. Creio estarmos no tempo da elucidação positiva...

Ouvindo-o, o Irmão Bernardo, mentor espiritual da reunião, que senhoreava as energias

mediúnicas, aventou, sorridente :

– Você deseja, então, espetacular manifestação de Cima... Alguém que caia das nuvens à

feição de um pára-quedista do Espaço, em trajes fantasmagóricos, usando idioma

incompreensível... um itinerante de outras constelações, cuja inopinada presença talvez

ocasionasse enorme porção de mal, ao invés do bem que deveria trazer...

– Não, não é tanta a exigência – aduziu Parreira, desapontar. – Bastaria um ser

materializado na forma humana, sem a descida visível do firmamento. Não será preciso que

essa ou aquela entidade se converta em bólide para acentuar-me a convicção. Poderia surgir

em nossa intimidade doméstica, sem qualquer passe de mágica, revelando-se no lar fechado

em que antes não existia, a mostrar-se igual a nós outros, sendo, contudo, estranho ao

nosso conhecimento...

– No entanto, sabe você que toda concessão envolve deveres justos. Um Espírito, para

materializar-se na Terra, solicita meios e condições. Imaginemos que a iniciativa

transformasse o hóspede suspirado numa criatura doente e débil, requisitando cuidado, até

que pudesse exprimir-se com segurança. Incumbir-se-ia você de auxiliar o estrangeiro,

acalentando-o com tolerância e bondade, até que venha a revelar-se de todo? Estaria

disposto a sofrer-lhe as reclamações e as necessidades, até gabe se externe, robusto e

forte?

– Oh! isso mesmo. Perfeitamente!... – gritou Parreira, maravilhado. – Contemplar um Espírito

assim, de modo insofismável, sem que eu lhe explique a existência no mecanismo no oculto,

consolidaria, sem dúvida, a riqueza de minha fé na imortalidade. Isso é tudo quanto peço,

tudo, tudo...

Bernardo sorriu, filosoficamente, e acrescentou :

– Mas, Parreira, isso é acontecimento de todo dia e tal manifestação é recente sob o teto que

nos acolhe. Ainda agora, na quinzena passada, você recebeu semelhante bênção, asilando

no próprio lar um viajante de outras esferas, com a obrigação de ajudá-la até que se enuncie

sem vacilação de qualquer espécie... Esse gênio bondoso e amigo corporificou-se quase em

seus braços. Bateu-lhe à porta, que você abriu generosamente. Entrou. Descansou:

Permaneceu. E, ainda agora, ligado a você, espera o seu carinho e devotamento, a fim de

atender plenamente à própria tarefa...

Como assim? como assim? – irrompeu Germano, incrédulo. – Nada vi, nada sei, não pode

ser...

Mas o Benfeitor Espiritual, controlando o médium, ergueu-se a passo firme e, demandando

aposento próximo de lá regressou, trazendo leve fardo.

Ante a surpresa dos circunstantes,Bernardo depositou-o com respeitosa ternura no regaço

do amigo que ainda argumentava.

Parreira desenovelou curiosamente o pequenino volume e entre aflito e espantado,

encontrou em plácido sono de recém-nato, o corpo miúdo e quente do próprio filho.

Irmão X

46 - NO LAR

Não olvides que teu filho, sendo a materialização de teu sonho, é também tua obra na Terra.

Às vezes é um lírio que plantaste no tempo; contudo, na maioria das ocasiões, é um

fragmento de mármore que deixaste à distância.

Flor que te pode encorajar ou pedra que te pode ferir.

Recebe-o, pois, como quem encontra a oportunidade mais santa de trabalho no mundo.

Não lhe abandones o espírito à liberdade absoluta, para que se não perca ao longo da

estrada, e nem cometas a loucura de encarcerá-lo em teus pontos de vista, para que o teu

exclusivismo não lhe desfigure as qualidades inatas para o infinito bem.

Ajuda-o, acima de tudo, a crescer para o ideal superior, assim como auxilias a árvore

nascente, em ímpeto ascensional para a luz.

Livra-o das deformidades mentais, tanto quanto proteges o vegetal proveitoso contra a

invasão da erva sufocante.

Ser pai é ser colaborador efetivo de Deus, na Criação.

Receber um filho é deter entre os homens o mais sagrado depósito.

Não desertes, assim, da abnegação em que deves empenhar todas as forças peculiares à

própria vida, a fim de que o rebento de tuas aspirações humanas se faça legítimo sucessor

dos teus mais íntimos anseios de elevação.

O lar, na Terra, ainda é o ponto de convergência do passado. Dentro dele, entre as quatro

paredes que lhe constituem a expressão no espaço, recebemos todos os serviços que o

tempo nos impõe, habilitando-nos ao título de cidadãos do mundo.

Exercitemos, desse modo, o amor e o serviço, a humildade e o devotamento, no templo

familiar, à frente de nossos amigos ou adversários do pretérito transformados hoje em

nossos parentes ou em nossos filhos, e estaremos alcançando nos problemas da eternidade

a mais alta e a mais sublime equação.

Emmanuel

47 - CORAÇÃO MATERNAL

Mãe, que te recolhes no lar, atendendo à Divina Vontade, não fujas a renuncia que o mundo

te reclama ao coração.

Recebeste no templo familiar o sublime mandato da vida.

Muitas vezes, ergueste cada manhã, com o suor do trabalho, e confiaste à noite, lendo a

página branca das lagrimas que te emanam da lama ferida.

Quase sempre, a tua voz passa desprezada, com vazio rumor o alarido das discussões

domestica, e as tuas mãos diligentes servem com sacrifício, sem que ninguém lhes assinale

o cansaço...

Lá fora, os homens guerreiam, entre si, disputando a posse efêmera do ouro ou da fama, da

evidencia ou da autoridade...Além, a mocidade , em muitas ocasiões,grita festivamente,

buscando o mentiroso prazer do momento rápido...

Enquanto isso, medita e esperas, na solidão da prece,com que te elevas ao Alto, rogando a

felicidade daqueles de quem te fizeste o gênio guardião.

Quando o santo sobe às eminências do altar, ninguém te vê nas amarguras da base, e

quando o herói passa, na rua, coroado de louros, ninguém se lembra de ti, na retaguarda de

aflição.

Deste tudo e tudo ofereceste, entretanto, raros se recordam de que teus olhos jazem

nevoados de pranto e de que padeces angustiosa fome de compreensão e carinho.

No entanto, continuas amando e ajudando, perdoando e servindo...

Se a ingratidão te relega à sombra na Terra, o Criador de tua milagrosa abnegação vela por

ti dos Céus, através do olhar cintilante de milhões de estrelas.

Lembra-te de que Deus a fonte de todo o amor e de toda a sabedoria, é também o Grande

Anônimo e o Grande Esquecido entre as criaturas.

Tudo passa no mundo...

Ajuda e espera sempre.

Dia virá em que o Senhor, convertendo os braços da cruz de teus padecimentos em grandes

asas de luz, transformará tua alma em astro divino e iluminar para sempre a rota daqueles

que te propuseste socorrer.

Meimei

48 - TROVAS DE MÃE

Dia das Mães!... Alegrias

Das mais puras, das mais belas!...

Mas é preciso saber

O dia que não é delas.

O nosso berço no mundo,

Sem que ninguém o defina,

É um segredo entre a mulher

E a Providência Divina.

Mãe possui onde apareça

Dois títulos a contento:

Escrava do sacrifício,

Rainha do sofrimento.

Mulher quando se faz mãe,

Seja ela de onde for,

Por fora é sempre mulher,

Por dentro é um anjo de amor.

Maternidade na vida,

Que o saiba quem não souber,

É uma luz que Deus acende

No coração a mulher.

Coração de mãe parece,

No lar em que se aprimora,

Padecimento que ri,

Felicidade que chora.

Pela escritura que trago,

Na história dos sonhos meus,

Mãe é uma estrela formada

De uma esperança de Deus.

Delfina Benigna da Cunha

49 - EM CASA

Ninguém foge à lei da reencarnação.

***

Ontem, atraiçoamos a confiança de um companheiro, induzindo-o à derrocada moral.

Hoje, guardamo-lo na condição do parente difícil, que nos pede sacrifício incessante.

***

Ontem, abandonamos a jovem nos amava, inclinando-a ao mergulho na lagoa do vício.

Hoje, temo-la de volta por filha incompreensiva, necessitada do ano amor.

***

Ontem, colocamos o orgulho e a vaidade no peito de um irmão que nos seguia os exemplos

menos felizes.

Hoje, partilhamos com ele, à feição de esposo despótico ou de filho-problema, o cálice

amargo da redenção.

***

Ontem, esquecemos compromissos veneráveis, arrastando alguém ao suicídio.

Hoje, reencontramos esse mesmo alguém na pessoa de um filhinho, portador de moléstia

irreversível, tutelando-lhe, à custa de lágrimas, o trabalho de reajuste.

***

Ontem, abandonamos a companheira inexperiente, à míngua de todo auxílio, situando-a nas

garras da delinqüência.

Hoje, achamo-la ao nosso lado, na presença da esposa conturbada e doente, a exigir-nos a

permanência no curso infatigável da tolerância.

***

Ontem, dilaceramos a alma sensível de pais afetuosos e devotados, sangrando-lhes o

espírito, a punhaladas de ingratidão.

Hoje, moramos no espinheiro em forma de lar, carregando fardos de angústia, a fim de

aprender a plantar carinho e fidelidade.

À frente de toda dificuldade e de toda prova, abençoa sempre e faze o melhor que possas.

Ajuda aos que te partilham a experiência, ora pelos que te perseguem, sorri para os que te

ferem e desculpa todos aqueles que te injuriam...

A humildade é chave de nossa libertação.

E, sejam quais forem os teus obstáculos na família, é preciso reconhecer que toda

construção moral do Reino de Deus, perante o mundo, começa nos alicerces invisíveis da

luta em casa.

Emmanuel

50 - PROVAÇÃO MATERNA

Gritava a velha anciã, em rede morna e langue:

-Bate, meu filho!... Zurze o chicote a preceito!...

Um servo é igual ao boi que nasceu para o eito...

E o filho, Dom Muniz, deixava o servo em sangue.

Dos salões da fazenda ao derradeiro mangue,

Esculpira a fidalga um carrasco perfeito,

Mas vem a morte, um dia, e leva o filho eleito,

A matrona pranteia e larga o corpo exangue...

No Além, cai Dom Muniz em abismos de prova!...

Aflita, a pobre mãe pede a deus vida nova,

Quer guardá-lo, outra vez, numa estrada sem brilho...

Hoje, mulher sem lar, definha, a pouco e pouco,

E, aos duros repelões de um jovem cego e louco,

Roga, em pranto de amor:”Não me batas, meu filho!...”

Valentim Magalhães

51 - MENSAGEM DA CRIANÇA AO HOMEM

Construísse palácios que assombram a Terra; entretanto, se me largas ao relento,

porque me faltem recursos para pagar hospedagem, é possível que a noite me enregele de

frio.

***

Multiplicaste os celeiros de frutos e cereais, garantindo os próprios tesouros; contudo, se

me negas lugar à mesa, porque eu não tenha dinheiro a fim de pagar o pão, receio morrer de

fome.

***

Levantaste universidades maravilhosas, mas, se me fechas a porta da educação, porque

eu não possua uma chave de ouro, temo abraçar o crime, sem perceber.

***

Criaste hospitais gigantes; no entanto, se não me defendes contra as garras da

enfermidade, porque eu não te apresente uma ficha de crédito, descerei bem cedo ao

torvelinho da morte.

***

Proclamas o bem por base da evolução; todavia, se não tens paciência para comigo,

porque eu te aborreça, provavelmente ainda hoje cairei na armadilha do mal, como ave

desprevenida no laço do caçador.

***

Em nome de Deus que dizes amar, compadece-te de mim! ...

Ajuda-me hoje para que eu te ajude amanhã.

Não te peço o máximo que alguém te venha a solicitar em meu benefício ...

Rogo apenas o mínimo do que me podes dar para que eu possa viver e aprender.

Meimei

52 - CONSELHO MATERNO

Ouve, filhinho,

Pelo caminho

Encontrarás

Muita criança

Sem esperança,

Sem luz, sem paz...

Aves pequenas,

Guardam apenas

O pranto e a dor,

Rolando ao vento

Do sofrimento

Esmagador

Passam a sós,

Erguendo a voz,

Pedindo pão...

Passam em bando,

Dilacerando

O coração.

Ante a tristeza

Dessa aspereza,

Desse amargor,

Filhinho amigo,

Dá-lhes abrigo,

Dá-lhes amor...

És irmãozinho

Do pobrezinho

Que aflito vai...

Nos mesmos trilhos

Nós somos filhos

Do mesmo Pai.

João de Deus

53 – PREPARAÇÃO FAMILIAR

O problema familiar, por mais que nos despreocupemos dele, buscando fugir à

responsabilidade direta, constituirá sempre uma das questões fundamentais da felicidade

humana.

Ê um erro tremendo supor que a morte apaga as recordações, à maneira da esponja

que absorve o vinagre, na limpeza do vaso culinário. Certamente, os laços menos dignos

terminam na sombra do sepulcro, quando suportados valorosamente, e encarados como

sacrifício purificador, na existência material. Noventa per cento, talvez, dos matrimônios,

infelizes pela ausência de afinidade espiritual, extinguem-se com a morte, que liberta

naturalmente as vítimas dos grilhões e dos algozes. O Evangelho de Jesus ensina entre

os vivos que Deus não é Deus de mortos, e os que perderam a indumentária carnal,

sentindo-se mais vivos que nunca, acrescentam que Deus não é Deus de condenados.

Que os Otelos da Terra se previnam, em suas relações com as Desdêmonas virtuosas do

mundo, porque, além do cadáver, não poderão apunhalar as esposas livres da carne, e as

mulheres ciumentas, desgrenhadas dentro da noite, a gritarem blasfêmias in juriosas

contra os maridos inocentes, preparem-se para longo tempo de separação na esfera

invisível, onde, na melhor das hipóteses, receberão serviços reeducativos, em seu próprio

favor.

A morte seria um monstro terrível se consolidasse as algemas terrestres naqueles

que toleraram heroicamente a tirania e o egoísmo de outrem. Além de seus muros de

sombra, há castelos sublimes para os que amaram com alma e entesouraram, com o

sentimento mais puro, o ideal e a esperança numa vida melhor, e há também precipícios

escuros, por onde descem os revoltados, em desespero, por não poderem oprimir e

martirizar, por mais tempo, os corações devotados e sensíveis, de que se rodeavam na

Terra.

Feita a ressalva, alusiva aos princípios de afinidades que regem a sociedade espiritual,

recordemos a missão educativa que o mundo confere ao coração dos pais, em nome de

Deus.

Constituiria ato casual da Natureza a reunião de duas criaturas, convertidas em pai e

mãe de diversos seres? Mera eventualidade o erguimento de um berço enfeitado de

flores?

Diz a Medicina que o fato se resume a simples acontecimento biológico, o estatuto

político relaciona mais um habitante a enriquecer o povoamento do solo e a Teologia

sustenta que o Criador acaba de formar outra alma, destinada ao teatro da vida,

enquanto a instituição doméstica celebra a ocorrência com desvairada alegria, muito bela

sem dúvida, mas vizinha da irreflexão e da irresponsabilidade. Ê razoável que os pais

sintam emoções verdadeiramente sublimes e acolham o rebento de seu amor com

indefiníveis transportes de júbilo. Todavia, é necessário acrescentar que a galinha e a leoa

fazem o mesmo. Certas aves do sul da Europa chegam a roubar pequeninas jóias de

damas ricas, a fim de adornarem o ninho venturoso pela chegada dos filhotinhos. Por esse

motivo, no círculo da Humanidade, é preciso instituir serviços eficientes contra o carinho

inoportuno e esterilizante.

Qs filhos não são almas criadas no instante do nascimento, conforme as velhas

afirmativas do sacerdócio organizado. São companheiros espirituais de lutas antigas, a

quem pagamos débitos sagrados ou de quem recebemos alegrias puras, por créditos de

outro tempo. O instituto da família é cadinho sublime de purificação e o esquecimento

dessa verdade custa-nos alto preço na vida espiritual.

É lamentável nosso estado dalma, quando voltamos à vida livre, de coração

escravizado ao campo inferior do mundo, em virtude do olvido de nossas obrigações

paternais. Em vão, tentaremos ensinar tardiamente as lições da realidade legítima;

debalde nos abeiraremos dos corações amados, para recordar a eternidade da vida.

Semelhantes impulsos se verificam fora da ocasião desejável, porque a fantasia já

solidificou a sua obra e a ilusão modificou a paisagem natural do caminho. Não valem

mais o pranto e a lamentação. Ê indispensável aguardar o tempo da misericórdia, já que

menosprezamos o tempo do serviço!

Precatem-se, pois, os pais e mães terrestres, para que não se percam,

envenenando o coração dos filhos, à distância do dever e do trabalho. Aniquilem o

egoísmo afetuoso que os cega, se não querem cavar o abismo futuro!...

Enquanto escrevo, ouço um amigo, já arrebatado igualmente da vida humana, que me

pede endereçar aos companheiros encarnados as seguintes ponderações:

— Bem-aventurados os pais pobres de dinheiro ou renome, que não tolhem a iniciativa

própria dos filhos, nos caminhos da edificação terrestre! Através do trabalho áspero e

duro, de decepções e dificuldades, ensinam aos rebentos de seu lar que são irmãos dos

batalhadores anônimos do mundo, dos humildes, dos calejados, construindo-lhes a ventura

em bases sólidas e formando-lhes o coração na fé e no trabalho, antes que venham a

perverter o cérebro com vaidades e fantasias! Esses, sim, podem abandonar a Terra,

tranqüilamente, quando a morte lhes cerrar as pálpebras cansadas... Mas, infortunados

serão todos os pais ricos de bagagens mundanas, que desfiguram a alma dos filhos,

impondo--lhes mentirosa superioridade pelos artificialismos da instrução paga, carregandolhes

a mente de concepções prejudiciais, acerca do mundo e da vida, pelo exercício

condenável de uma ternura falsa! Esses, esperem pelas contas escabrosas, porque, de

fato, tentaram enganar a Deus, distanciando-lhe os filhos da verdade e da luz divina...

Depois da morte do corpo, sentirão a dor de se verem esquecidos no dia imediato ao dos

funerais de seus despojos, acompanhando, em vão, como mendigos de amor, os filhos

interessados na partilha dos bens, a revelarem atitudes cruéis de egoísmo e ambição!

Com estas palavras de um amigo, finalizo minhas despretensiosas considerações

sobre as responsabilidades domésticas, mas duvido que existam pais e filhos na carne com

bastante sensatez para nelas acreditarem.

IRMÃO X

54 - SANTA MATERNIDADE

Recordo, castelã!... O narciso trescala

Do teu colo a fulgir de jóias soberanas...

Alguém morre na festa... E, soberba, te ufanas

Do jovem que impeliste ao suicídio na sala.

Tempos correram, presto... Entre humildes choupanas,

Trazes agora ao peito um filhinho sem fala,

Mutilado ao nascer, flor que se despetala,

No trato de aflição da prova em que te fanas...

Restauras, padecente, a vítima de outrora,

Ontem, transviada e ré, hoje, mãe que ama e chora!...

Salve a reencarnação, passaporte ao futuro!

Mãe, agradece a dor!... No porvir que vem perto,

Brilharás como estrela, ante o filho liberto,

E alcançarás, ditosa, o reino do amor puro!...

Epiphanio Leite

55 - PAPAI RICO

Conheci Cantídio Pereira em pleno fastígio econômico. Duas fazendas na gleba fluminense e

grande conjunto residencial em formosa praia do Rio. Gostava de carros e viagens, diversões e

aperitivos. Era, em suma, cavalheiro elegante e bem posto, relacionando anedotas finas em cada

conversacão.

Não abraçava o grande amigo, desde muito tempo, quando fui reencontrá-lo, justamente ali, em

velha casa consagrada a problemas e assuntos de reencarnação.

Recolhi-o, de encontro ao peito, com a felicidade de quem surpreende um irmão em país

diferente, e passamos a falar no mesmo idioma de carinho e recordação.

Ignorando-lhe a mudança, da Terra para a Vida Espiritual, era natural me espantasse, não

apenas por revê-lo em pessoa, mas também ao verificar-lhe a aflitiva apresentação.

O antigo “gentleman”, que envergava costumes de puro linho inglês nos repastos do Leme,

parecia desempenhar agora o papel de mendigo. Veste rota, desajeitada. Amargura, desencanto,

tristeza...

Foi por isso, talvez, que as minhas primeiras indagações veladas respondeu sem rebuços:

– Não se admire, meu caro... Não é a morte que opera tamanha transformação. É a própria vida

que continua...

– Mas você...

– Não faca perguntas – falou bem humorado –, explicarei...

E prosseguiu :

– Você provàvelmente ainda não sabe que voltei da Terra, há dois anos. Tempo bastante para

renovar-me em todas as dimensões, apesar de ter vivido por lá mais de setenta. Imagine que

meus quatro filhos eram meus quatro amores. Viúvo desde a mocidade, concentrei neles a

própria vida. João e Eduardo, Linda e Eunice resumiam meus sonhos. Casados, continuaram a

ser minha doce alegria. Além disso, povoaram-me a velhice com quatro netos, que eram para

mim claros jorros de sol. Julguei que a morte não nos distanciasse uns dos outros ; entretanto,

meu amigo, tão logo cerrei os olhos, a paixão do dinheiro endoideceu minha gente. Tudo

começou, ao pé das orações que fizeram de boca, por intenção de minha felicidade, no sétimo

dia depois da grande separação. Conduzido por mãos amigas ao templo religioso em que se

ajuntavam, observei, assombrado, que filhos e filhas, noras e genros se entreolhavam com

inesperada desconfiança. Em seguida às preces, Linda e Eunice começaram a rixar em nossa

casa, pela posse de alguns pratos de porcelana chinesa, não pelo valor afetivo que assinalavam,

mas pelo preço a serem vendidos na feira de antiguidades. Chamados à cena, Eduardo e João,

com as respectivas esposas, desceram a outras minúcias e, ali mesmo, no santuário doméstico,

vi lembranças quebradas, vasos atirados pelas janelas, livros queimados e retratos destruídos,

com a troca abundante de murros e palavrões. O lar, dantes respeitado, fêz-se palco de luta livre.

Chorei e implorei concórdia, mas ninguém me sentiu a, presença. Na noite desse mesmo dia,

meus genros procuraram meus filhos, com pesadas reclamações. Afirmando-se injuriados,

exigiam adiantamento sobre a herança. Surpreendidos por ameaças, na solidão do extenso

gabinete que me fora refúgio, meus rapazes assinaram cheques vultosos, tomados de ódio

silencioso. No dia imediato, um dos genros comprou carro de luxo, iniciando-se em bebedeiras,

enquanto o outro dava curso à recalcada predileção pelas corridas, adquirindo cavalos de grande

fama. Linda e Eunice reclamaram em vão. Totalmente alterados pelo dinheiro fácil, ambos

desgarraram para o vício. Minhas filhas passaram a conhecer dificuldades que nunca viram.

Linda, mais sensível, adoeceu, e, porque mostrasse profundo desequilíbrio nervoso, foi recolhida

a uma casa de alienados mentais. Eunice enlouqueceu de outro modo... Acompanhando o

marido para fiscalizar-lhe as noitadas alegres, aderiu aos prazeres noturnos, caiando em conflitos

sentimentais de que sòmente se livrará Deus sabe quando... João e Eduardo, a princípio unidos

pelo interesse, acabaram desavindos... Disputaram a posse das vacas, praguejando entre si...

Depois, divergiram quanto à escolha das terras, em seguida venderam--me as casas,

desvastando-me os bens, assumindo a posição de inimigos ferozes... De bolsos recheados,

esqueceram as obrigações de família e puseram-se, desorientados, no tropel da aventura... As

noras igualmente, acreditando mais no dinheiro que no trabalho, descambaram para mentiras

douradas, apodrecendo em preguiça, e os meus pobres netos são hoje meninos infelizes... Os

dois menores estão viciados em gotas entorpecentes e os dois maiores em flagelo de lambreta...

De expressão desenxabida, Pereira ajuntou:

– Nunca recebi dos meus o favor de uma prece realmente sincera, nem o socorro de um só

pensamento de gratidão... No fundo, colhi o que semeei... Acima da riqueza amoedada, deveria

colocar o trabalho e a educação, a fraternidade e a beneficência... Agora, é preciso voltar à

Terra, começar tudo de novo e olvidar a minha tragédia de papai rico...

Nesse ínterim, o dirigente da instituição chamou por ele e pude ouvir o instrutor dizer-lhe, grave :

– Seu pedido de reencarnação, por enquanto, não tem fundamento... Você tem créditos para

repousar e preparar-se, por mais quarenta a cinqüenta anos, junto de nós...

– Entretanto – falou Cantídio –, tenho pressa... Aspiro a novo corpo de carne, a agir e a

esquecer...

– Bem – aduziu o diretor –, para o momento, só dispomos de recurso difícil. Só existe uma

oportunidade, já, já... O irmão poderá reencarnar na região do Rio de Janeiro, mas... não na

beleza e na glória da grande cidade que tanto amamos, mas, sim, entre os filhos de um casal de

idiotas, no antigo Morro dos Cabritos...

Cantídio, no entanto, longe de aborrecer-se, pôs as mãos postas em sinal de agradecimento e

gritou, feliz:

– Obrigado! Obrigado!... Renascer no Morro doa Cabritos, com pouca memória, é muita

felicidade!...

E concluiu, transtornado de júbilo: – Bendito seja Deus!

Irmão X

56 - MEU FILHO

Filho meu de outro tempo, armei-te de ouro e lança,

Exortei-te a sonhar: “ama, constrói, ensina!...”

E transformaste o mando em presença assassina;

Vejo-te a trilha em fogo onde a memória alcança.

Quis ver-te reencarnado.., O amor jamais descansa.

E achei-te — águia enjaulada em gaiola mofina —-

Cego e mudo a esmolar e a gemer em surdina.

Trazes luto no peito e chagas na lembrança!...

Chorei ao reencontrar-te em provações supremas...

Louvo, entanto, meu filho, as ríspidas algemas

Da dor a nos zurzir, ao redor de teus passos!

O pranto lavará nossas culpas longevas,

E, um dia, subirás da humilhação nas trevas

Para a glória da luz na concha dos meus braços.

Epiphanio Leite

57 - CRIANÇAS DOENTES

Acalentas nos braços o filhinho robusto que o lar te trouxe e, com razão, te orgulhas dessa

pérola viva. Os dedos lembram flores desabrochando, os olhos trazem fulgurações dos

astros,os cabelos

Recordam estrigas de luz e a boca assemelha-se a concha nacarada em que os teus beijos

de ternura desfalecem de amor.

Guarda-o, de encontro ao peito, por tesouro celeste, mas estende compassivas mãos aos

pequeninos enfermos que chegam à Terra, como lírios contundidos pelo granizo do

sofrimento.

Para muitos deles, o dia claro ainda vem muito longe...

São aves cegas que não conhecem o próprio ninho, pássaros mutilados, esmolando socorro

em recantos sombrios da floresta do mundo... Às vezes, parecem anjos pregados na cruz de

um corpo paralítico ou mostram no olhar a profunda tristeza da mente anuviada de densas

trevas.

Há quem diga que devem ser exterminados para que os homens não se inquietem; contudo,

Deus, que é a Bondade Perfeita, no-los confia hoje, para que a vida, amanhã, se levante

mais bela.

Diante, pois, do teu filhinho aquinhoado de reconforto, pensa neles!... São nossos outros

filhos do coração, que volvem das existências passadas, mendigando entendimento e

carinho, a fim de que se desfaçam dos débitos contraídos consigo mesmos...

Entretanto, não lhes aguardes rogativas de compaixão, de vez que, por agora, sabem tãosomente

padecer e chorar.

Enternece-te e auxilia-os, quanto possas!...

E, cada vez que lhes ofertes a hora de assistência ou a migalha de serviço, o leito

agasalhante ou a lata de leite, a peça de roupa ou a carícia do talco, perceberás que o júbilo

do Bem Eterno te envolve a alma no perfume da gratidão e na melodia da bênção.

Meimei

58 - O IRMÃOZINHO

Quando nasceu Antoninho,

Disse vovó, com carinho:

- Nesta adorável criança,

Temos mais uma esperança!

Ganhamos um novo amigo

Que procura nosso abrigo.

É um Espírito que vem

Buscar a verdade e o bem;

Crescerá, junto de nós,

Terá força, terá voz ...

Agora, é um bebê risonho,

No berço feito de sonho;

Amanhã, que se comporte,

Será homem nobre e forte.

Seu coração está cheio

Da grande luz de onde veio.

Ele volta ao nosso nível

Da imensa esfera invisível,

Procurando amor e luz

Para servir a Jesus.

Em seguida, vovozinha

Beijou-lhe a face branquinha,

E falou, findo o intervalo:

- Deus nos ajude a guardá-lo.

João de Deus

59 - PAIS E FILHOS

Nas vésperas da reencarnação, sou impelido a falar-vos de minha bancarrota espiritual!...

Instrutores e guardiães recomendam-me destacar a importância do ouvido...

Conseguiria, no entanto, ensinar alguma coisa?

Devo compreender a razão dessa ordem.

Nada possuo de bom para dar; contudo, as vítimas da calúnia conseguem reter o doloroso

privilégio de exibir a própria falência!...

O Deus de Amor, dai-me forças para confessar a verdade, apenas a verdade!...

Pedreiro modesto, órfão de mãe desde a meninice, casei-me por amor, embora contra os

desígnios de meus irmãos, que me reservavam noiva diferente. Garantindo-me a escolha,

porém, estava nosso pai a meu lado – o abnegado pai que amadurecera o raciocínio nas

dificuldades do mundo e iluminara o coração no conhecimento do Espiritismo. Carinhoso,

assegurou-me o enlace, aprovou-me as decisões e intentou preparar-me, diante da vida,

dispensando-me ensinamentos que eu simulava aceitar, de modo a lhe não perder a

complacência e a ternura...

Seis anos passaram, sem que a hostilidade familiar contra minha mulher esmorecesse, seis

anos de maledicência na base da perseguição cordial...

Alice, a companheira inexperiente, proporcionara-me dois filhos queridos, quando se

engravidou pela terceira vez.

Nessa época, o veneno já me corroer a confiança.

Apontava-se amigo nosso de infância como sendo o responsável pelos supostos desacertos

daquela que a Providência Divina me colocara nas mãos por esposa leal.

Circunstâncias provocadas pelos que mostravam interesse em nossa desunião, falsos

testemunhos, bilhetes anônimos e difamações fantasiadas de bons conselhos acabara por

arruinar-me...

Discutimos.

Acusei-a, defendeu-se. Chorou, escarneci...

E, para fiscalizar-lhe a conduta, transferi-me para a casa paterna, ameaçando tomar-lhe as

crianças, através do desquite. Para isso, porém, queria provas, tinha fome de confirmações

do inexistente.

Meu pai surgia conciliador:

– Meu filho, paternidade é compromisso perante Deus...

– Você não tem direito de proceder assim...

– Onde a caridade para com a esposa ingênua?...

– Mesmo que ela errasse, constituiria isso motivo para uma sentença de abandono

implacável?

– Há comportamentos ditados por desequilíbrios espirituais que não conhecemos na

origem...

– Pense nas tragédias da obsessão que campeiam no mundo...

– E os pequeninos? Terão eles a culpa de nossas perturbações?

– Recorramos a prece, meu filho!... A prece nos clareará o caminho...

Silenciava, ao recolher-lhe as advertências, em face da veneração que lhe tributava, mas, no

íntimo, articulava minhas respostas imanifestas: “orarei pela boca do revólver”, “pobre pai”,

“bobo de velho com setenta e seis anos”, “cabeça tonta”, “caduco”, “fanático”...

E, noite a noite, espreitava, de longe, os movimentos de Alice, à feição da serpente vigiando

a furna de que aparentemente desertara.

Duas semanas decorreram, normais, quando sobreveio o momento em que lobriguei o vulto

de um homem que saía de nossa casa...

Seria o rival...

Guardei segredo e prossegui na tocaia.

Mais quatro dias e o mesmo homem chegou de carro, despediu-se do motorista e entrou...

Puxei o relógio. Onze horas e quinze minutos. Noite quente.

Prevenido, acerquei-me da moradia, que se localizava em subúrbio remoto.

Encontraram-se os dois com mostras de intimidade e, a distância, notei que se acomodavam

num banco de pedra do pátio lateral, que a sombra envolvia. Conversavam sugerindo

carinho mútuo. Enxergava-lhes o perfil, mergulhado em penumbra, conquanto não lhes

ouvisse as palavras, e estudei, friamente, a posição que ocupavam na peça estreita.

Desvairado, consultei o portão de entrada, verificando-o semiaberto. Acesso fácil.

Com a sagacidade de um felino, avancei, descarregando a arma nos dois.

Ouvi gritos, mas ocultei-me na vizinhança, para fugir em seguida, a sentir-me vingado.

Não vacilaria arrostar a polícia, se necessário.

Tentando refrigerar a cabeça, procurei descansar algumas horas em praia deserta. Entreguei

o revólver à lama de esgoto esquecido e voltei a casa para saber, aterrado, que eu não

apenas assassinara minha esposa, mas também meu abnegado pai que a socorria...

Não acreditei.

Corri ao necrotério e, ao reconhecê-los, tornei ao lar, atormentado pelo remorso, e enforqueime,

sem dar outra impressão que não fosse a de um homem que a dor fizera delirar,

atirando-o ao suicídio...

Exilado por minha própria crueldade, em vales tenebrosos, nunca mais vi os que amo...

Entendereis o que sofro?

Quantos anos passaram sobre os meus crimes? Não sei... Os que choram sem o controle do

tempo não sabem contar as horas...

Misericórdia, meu Deus!...

Dai-me a reencarnação, os empenhos da Terra, a luta, a provação e o esquecimento, mas

ainda que eu padeça humilhação e surdez, durante séculos, permiti, Senhor, que eu aprenda

a escutar!...

João

60 - CULTO CRISTÃO NO LAR

Povoara-se o firmamento de estrelas, dentro da noite prateada de luar, quando o Senhor,

instalado provisoriamente em casa de Pedro, tomou os Sagrados Escritos e, como se

quisesse imprimir novo rumo à conversação que se fizera improdutiva e menos edificante,

falou com bondade:

-Simão , que faz o pescador quando se dirige para o mercado com os frutos de cada dia?

O apóstolo pensou alguns momentos e respondeu, hesitante:

-Mestre, naturalmente, escolhemos os peixes melhores. Ninguém compra resíduos da pesca.

Jesus sorriu e perguntou, de novo:

-E o oleiro? Que faz para atender à tarefa a que se propõe?

-Certamente, Senhor – redargüiu o pescador, intrigado -, modela o barro, imprimindo-lhe a

forma que deseja.

O amigo Celeste, de olhar compassivo e fulgurante, insistiu:

-E como procede o carpinteiro para alcançar o trabalho que pretende?

O interlocutor, muito simples, informou sem vacilar:

-Lavará a madeira, usará a enxó e o serrote, o martelo e o formão. De outro modo, não

aperfeiçoará a peça bruta.

Calou-se Jesus, por alguns instantes, e aduziu:

- Assim também, é o lar diante do mundo. O berço doméstico é a primeira escola e o primeiro

templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida

comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o marceneiro não consegue fazer um

barco sem afeiçoar a madeira aos seus propósitos, como esperar uma comunidade segura e

tranqüila sem que o lar se aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos

acolhemos. Se não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a

harmonia das nações? Se nos não habituamos a amar irmão mais próximo, associado à

nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?

Jesus relanceou o olhar pela sala modesta, fez pequeno intervalo e continuou:

- Pedro, acendamos aqui, em torno de quantos nos procuram a assistência fraterna, uma

claridade nova. A mesa de tua casa é o lar de teu pão. Nela, recebes do Senhor o alimento

para cada dia. Por que não instalar, ao redor dela, a sementeira da felicidade e da paz na

conversação e no pensamento? O Pai, que nos dá o trigo para o celeiro, através do solo,

envia-nos a luz através do céu. Se a claridade é a expansão dos raios que constituem, a

fartura começa no grão. Em razão disso, o Evangelho não foi iniciado sobre a multidão, mas,

sim, no singelo domicílio dos pastores e dos animais.

Simão Pedro fitou no Mestre os olhos humildes e lúcidos e, lúcidos e, como não encontrasse

palavras adequadas para explicar-se, murmurou, tímido:

-Mestre, seja feito como desejas.

Então Jesus, convidando os familiares do apóstolo à palestra edificante e à meditação

elevada, desenrolou os escritos da sabedoria e abriu, na Terra, o primeiro culto cristão do lar.

Neio Lúcio

61 - CONFISSÃO MATERNA

Sou trazida a narrar-vos triste episódio de minha derradeira experiência no mundo.

Onde, porém, as palavras que me possam exprimir a desolação?

Ainda assim, amigos espirituais asseveram que devo falar às mães, e obedeço...

A Providência Divina honrou-me o coração, concedendo-me um lar na Terra, mas, dentro

dele, era eu a irritação em movimento.

Nunca cheguei a examinar minha cegueira de espírito. Em minha inquietação e egoísmo,

dedicava-me a descobrir as faltas alheias. Respirando, entre a maledicência e a

desconfiança, notava golpes nos mínimos gestos de amizade espontânea.

O próprio tempo não escapava. Toda temperatura, no curso de cada dia, me encontrava

despejando condenação:

– A chuva ensopa...

– O calor asfixia...

– Vento de peste...

– Melhor que o frio nos mate a todos...

Qualquer bagatela me arrancava blasfêmias:

– Deus não me atende!...

– Não oro mais...

– Porque não morri, na hora do nascimento?

– De todas as mulheres, sou a mais infeliz...

Alimentando a ira por vício, estimava que os outros me acreditassem enferma, sem perceber

que me transformava, a pouco e pouco, em fera humana, sob a jaula da pele.

Se meu esposo, leal e amigo, surgia calmo, esbravejava contra ele, acusando-o de inerte; se

ponderava quanto a despesas desnecessárias, chamava-lhe, de imediato, unha-de-fome; se

me estendia alguma dádiva menos cara, interpretava-lhe a gentileza por sovinice; se me

ofertava uma lembrança de preço, queixava-me da mesma forma, gritando-lhe em rosto que

ele nunca passara de um mané gastador...

Foi nessa disposição insensata que me ergui, excitada, no dia terrível da provação.

Ás sete da manhã, acordei meu filhinho de oito anos para as lides da escola e escutei-o a

choramingar :

– Estou doente, mãezinha, hoje quero ficar com a senhora, não posso sair, tenho dor de

cabeça...

Precipitada, frenética, não me contive e bradei:

– Preguiçoso! Trate de levantar-se! Doente com essa cara! Era só o que faltava... Chega o

que sofro!...

– Mãezinha, deixe que eu fique! Hoje só...

– Levante-se, levante-se, menino!

Transtornada, sentei-o à força.

Ordenei-lhe que se calçasse, ao que se opor, pedindo, suplicante:

– Mamãe, não me deixe ir!... Hoje só...

Encolerizada, tornei de um dos seus sapatos, colocando-o no pé, com a violência de quem

espanca, e ouvi-o clamar em altos gemidos:

– Ai! ai, mãezinha!... um espinho, um espinho.

Sujeitei-o, com mais energia, ao calçado, alegando, arbitrária :

– Malandro, não me venha com mentiras! Escola ou surra!...

Nisso, porém, meu filhinho empalideceu e desmaiou... Retirei o sapato e vi que um

escorpião, escondido no fundo, lhe descarregara todo o veneno...

Ó Deus de Infinita Bondade, tu que foste imensamente piedoso para confiar um anjo a uma

leoa, porque não eliminaste a leoa para que o anjo conseguisse viver?!...

O que se passou, alcança o indescritível.

Apesar de toda a medicação, em breve tempo minha ternura, que a dor desentranhara ao

rebentar-me a coração de pedra, apertava simplesmente um cadáver miúdo, de encontro ao

peito...

As horas no relógio continuaram as mesmas; entretanto, de minha parte, não mais me

reconheci.

“Ai! ai, mãezinha!... um espinho, um espinho!...” Aquelas palavras gemidas cresceram em

minha alma. Jamais o equilíbrio, não mais a esperança. Minha cabeça encaneceu, meu

pensamento destrambelhou... Chorei até que meus olhos parassem, alucinados, na noite da

loucura; acusei-me, até que o manicômio me asilasse e até que o manicômio me

escondesse, piedoso, o agoniado transe da morte!...

Desencarnada, encontrei a mim própria, dementada, atormentada, arrependida, padecente...

Amparada por benditos mensageiros da caridade, tenho recolhido o consolo de vários

círculos consagrados à prece.

Dizem que os supostos mortos devem falar às criaturas em aprendizado na Terra, para que

as criaturas da Terra lhes aproveitem o aprendizado.

Será talvez por isso que, hoje, algo reanimada para abraçar o trabalho reeducativo que me

espera, estou sustentada por benfeitores, entre os vossos ouvidos, não sómente para rogarvos

um pensamento de auxilio, mas também para repetir às irmãs, a quem Deus confiou as

alegrias do lar:

– Mães que pisais no mundo, compadecei-vos de vossos filhos!... Corrigi, amando! Ensinai,

servindo! À frente de qualquer dificuldade, conservai a paciência e cultivai a oração!...

Dulce

62 - PAZ EM CASA

“ Em qualquer casa onde entrardes, dizei antes: “paz seja nesta casa”.”

(Lucas 10:5)

Compras na terra o pão e a vestimenta, o calçado e o remédio, menos a paz.

Dar-te-á o dinheiro residência e conforto, com exceção da tranqüilidade de espírito.

Eis porque nos recomenda Jesus venhamos a dizer, antes de tudo, ao entramos numa casa:

“paz seja nesta casa”.

A lição exprime vigoroso apelo à tolerância e ao entendimento.

No limiar do ninho doméstico, unge-te de compreensão e de paciência, a fim de que não

penetres o clima dos teus, à feição de inimigo familiar.

Se alguém está fora do caminho desejável ou se te desgostam arranjos caseiros, mobiliza a

bondade e a cooperação para que o mal se reduza.

Se problemas te preocupam ou apontamentos te humilham, cala os próprios

aborrecimentos, limitando as inquietações.

Recebe a refeição por bênção divina.

Usa portas e janelas, sem estrondos brutais.

Não movas objetos, de arranco.

Foge à gritaria inconveniente.

Atende ao culto da gentileza.

Há quem diga que o lar é ponto do desabafo, o lugar em que a pessoa se desoprime.

Reconhecemos que sim; entretanto, isso não é razão para que ele se torne em praça onde a

criatura se animalize.

Pacifiquemos nossa área individual para que a área dos outros se pacifique.

Todos anelamos a paz do mundo; no entanto, é imperioso não esquecer que a paz do

mundo parte de nós.

Emmanuel

63 - CREDORES NO LAR

No devotamento dos pais, todos os filhos são jóias de luz; entretanto, para que compreendas

certos antagonismos que te afligem no lar, é preciso saibas que, entre os filhoscompanheiros

que te apóiam a alma, surgem os filhos-credores, alcançando-te a vida, por

instrutores de feição diferente.

Subtraindo-te aos choques de caráter negativo, no reencontro, preceitua a eterna bondade

da Justiça Divina que a reencarnação funcione, reconduzindo-os à tua presença, através do

berço. É por isso que, a princípio, não ombreiam contigo, em casa, como de igual para igual,

porquanto reaparecem humildes e pequeninos.

Chegam frágeis e emudecidos, para que lhes ensines a palavra de apaziguamento e

brandura.

Não te rogam a liquidação de débitos, na intimidade do gabinete, e, sim, procuram-te o colo

para nova fase de entendimento.

Respiram-te o hálito e escoram-se em tuas mãos, instalando-se em teus passos, para a

transfiguração do próprio destino.

Embora desarmados, controlam-te os sentimentos.

Não obstante dependerem de ti, alteram-te as decisões com simples olhar.

De doces numes do carinho, passam, com o tempo, à condição de examinadores constantes

de tua estrada.

Governam-te os impulsos, fiscalizam-te os gestos, observam-te as companhias e exigem-te

as horas.

Reaprendem na escola do mundo com o teu amparo; todavia, à medida que se desenvolvem

no conhecimento superior, transformam-se em inspetores intransigentes do teu grau de

instrução.

Muitas vezes choras e sofres, tentando adivinhar-lhes os pensamentos para que te

percebam os testemunhos de amor.

Calas os próprios sonhos, para que os sonhos deles se realizem.

Apagas-te, a pouco e pouco, para que julguem em teu lugar.

Recebes todas as dores que te impõem à alma, com sorrisos nos lábios, conquanto te

amarfanhem o coração.

E nunca possuis o bastante para abrilhantar-lhes a existência, de vez que tudo lhes dás de ti

mesmo, sem faturas de serviço e sem notas de pagamento.

***

Quando te vejas, diante de filhos crescidos e lúcidos, erguidos à condição de dolorosos

problemas do espírito, recorda que são eles credores do passado a te pedirem o resgate de

velhas contas.

Busca auxiliá-los e sustentá-los com abnegação e ternura, ainda que isso te custe todos os

sacrifícios, porque, no junto instante em que a consciência te afirme tudo haveres efetuado

para enriquecê-los de educação e trabalho, dignidade e alegria, terás conquistado, em

silêncio, o luminoso certificado de tua própria libertação.

Emmanuel

64 - COMPAIXÃO EM FAMÍLIA

"Mas se alguém não tem cuidado dos seus e, principalmente dos da sua

família, negou a fé...”.

Paulo. (I Timóteo, 5:8.)

São muitos assim,

Descarregam primorosa mensagem nas assembléias, exortando o povo à compaixão;

bordam conceitos e citações, a fim de que a brandura seja lembrada; Entretanto, no instituto

doméstico, são carrascos de sorriso na boca.

Traçam páginas de subido valor, em honra da virtude, comovendo multidões; mas não

gravam a mínima gentileza nos corações que os cercam entre as paredes familiares.

Promovem subscrições de auxílio público, em socorro das vítimas de calamidades ocorridas

em outros continentes, transformando-se em titulares da grande benemerência; contudo,

negam simples olhar de carinho ao servidor que lhes pões a mesa.

Incitam a comunidade aos rasgos de heroísmo econômico, no levantamento de albergues e

hospitais, disputando créditos publicitários em torno do próprio nome; entretanto, não

hesitam exportar, no rumo do asilo, o avô menos feliz que a provação expões à caducidade.

Não seremos nós quem lhes vá censurar semelhante procedimento.

Toda migalha de amor está registrada na lei, em favor de quem a emite.

Mais vale fazer bem aos que vivem longe, que não fazer bem algum.

Ajudemos, sim, ajudemos aos outros, quanto nos seja possível; entretanto, sejamos

igualmente bons para com aqueles que respiram em nosso hálito. Devedores de muitos

séculos temos em casa, no trabalho, no caminho, no ideal ou na parentela, as nossas

principais testemunhas de quitação.

Emmanuel

65 – MÃE, DEUS TE ABENÇOE!...

Quero, mãezinha, agradecer-te, em festa, por tudo o que me dás ao coração, entretecer-te

uma canção modesta, mas todo esforço é vão...

Se pudesse dizer a gratidão que sinto por teu santo carinho protetor, precisaria conhecer na

essência toda a glória do Amor.

Tens o segredo da Bondade Eterna, Deus me acena e sorri por tua face... Não há sábio no

mundo que defina o Sol quando aparece, o lírio quando nasce !...

Falar de ti, mostrar-te? Isso seria como explicar da Terra, olhando a Altura, a doce maravilha

de uma estrela a guiar o viajor em noite escura.

Converto em prece o reconhecimento, que em meu peito humilde se extravasa, rogando ao

Céu te envolva em rosas de ventura, anjo sustentador de nossa casa!...

Deus te guarde, mãezinha, pelo berço, descuidado e risonho, em que me acalentaste para a

vida, como flor de teu sonho.

Deus te engrandeça pelos sacrifícios e pelos sofrimentos que te impus, quando em pranto

escondido te arrasavas para ser minha Luz.

Deus te compense pelas noites tristes de aflição que te dei, pelo perdão de tantas vezes,

tantas ! ... Quantas foram, não sei ...

Deus te enalteça a fonte de ternura, que nunca se enodoa e nem se cansa,pelo cuidado com

que me restauras,ante o dom do trabalho e a forca da esperança!

Perdoa se te oferto unicamente, na minha devoção de todo dia, o meu ramo de flores

orvalhadas nas lágrimas que choro de alegria !

Com júbilos divinos, Mãe querida, que a celeste bondade te coroe ! ... Por tudo o que nos dá

nos caminhos da vida, Deus te exalte e abençoe ! ...

Maria Dolores